Rio Mondego

Alexandre Herculano — Cenas de um Ano da Minha Vida. Poesia e Meditação. [1831-1832]. Apontamentos de Viagem [1853-1854]
Agosto 22. - Saímos às seis horas para a Guarda a três léguas. Terreno pouco acidentado e medianamente cultivado: entramos na planície e tornamos a passar o Mondego: caminho quase sempre plano: por mais duma légua. No meio a Lajeosa, grande e próspera aldeia a uma légua de Celorico. É o melhor caminho que temos andado desde a Igreja da Lapa. Chegamos ao Porto da Carne, onde tornamos a passar o Mon… ver mais

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Entra-se na vila por uma estreita garganta que se alonga para o viajante como o bico de um funil. Se não é fácil a entrada pela foz do Mondego a bordo de uma das escunas ou dos iates que frequentam o porto e aos quais o rumo da barra é indicado de terra por meio de um sinal no alto de um mastro, a entrada em diligencia pelo funil acima referido não é menos perigosa. Somente, pela via de terra é permitido ao viajante um expediente, que se não usa na superfície líquida, e vem a ser: desembarcar a distancia respeitosa e entrar cada um na vila pelo seu pé.
[Agosto 20] - Descida para a casa dos Falachos de António Maria, a meia légua; onde ficámos: a casa mais confortável do distrito mas sem opulência: verdadeira casa de lavrador abastado. O fim do dia junto ao tanque rodeado de castanheiros. Agosto 21. - Saída dos Falachos para Celorico a duas léguas e meia. À medida que descemos para o extenso vale que é como uma continuação do de Trancoso, mas que parece muito mais ameno e fértil, as serranias nuas de granito vão desaparecendo à esquerda, e as alturas coroando-se de cultura e de arvoredo. À direita prolonga-se a serra calva e granítica de Trancoso que parece dirigir-se perpendicularmente sobre as primeiras cordilheiras da serra da Estrela propriamente dita, separadas do tipo meridional da de Trancoso por uma garganta estreita. Passamos o Mondego numa boa ponte de pedra e chegamos a Celorico colocada numa eminência. Nenhumas notícias de José Freire de Serpa Pimentel. A estalagem da Pinta. Visita à vila e ao castelo com o administrador do concelho e o presidente da Câmara. A torre de menagem meio voada: só resta um ângulo. Grande torre quadrada sobre a cerca: a muralha ainda em grande parte conservada. Parece tudo obra dos fins do XIV ou princípios do xv séculos. Nenhuma habitação dentro desta. A vila oferece um aspecto de progresso e prosperidade bem diversa do de Trancoso. Vista magnífica dos arredores regados pelo Mondego que serpeia a pouca distância da vila. Abundância de olivedo, hortas, campos de cereais, grupos de arvoredo nas vastas bacias de um e de outro lado por onde vai passando tortuoso o Mondego. A noite na estalagem: o ressonar, o calabouço em que dormimos.
Viagem para Penacova, caminhos impérvios pelas recostas dos montes. Os vales são algares para os quais a mão do homem arrastou alguma terra das faldas alargando-os e terraplenando-os: as encostas cultivadas em andares até às coroas dos montes. Penacova. O sítio do castelo, de que nada resta. Fraga contígua aprumada sobre o Mondego. Vista magnífica a voo de pássaro das margens: os engenhos de água para as regas: o rio tortuoso com semelhanças do alto Tejo, mas com leito de areia e com as ínsuas à raiz das quebradas: abaixo de Penacova o rio numa volta parece querer tornar atrás a mirar o caminho que andou.
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