Cais do Sodré
Ramalho Ortigão — As Praias de Portugal
Quando Ramalho Ortigão convida o leitor a fazer "o mais belo dos passeios permitidos ao habitante de Lisboa", é ao Cais do Sodré que se dirige, antes das sete da manhã de um domingo de Setembro de 1876. Ali, na ponte dos vapores, comprava-se o bilhete de ida e volta para Cascais por dez tostões, tomava-se uma chávena de leite ou chá preto no café Grego, e embarcava-se rumo à linha do estuário. … ver mais
Levanta-te ás 5 horas da manhã, n'um domingo, veste-te á luz do candieiro, porque em setembro ainda não é bem dia a essa hora, pega na tua bengala e no teu binoculo e vae á ponte dos vapores ao Caes do Sodré.
Tomamos um bilhete de ida e volta no vapor de Cascais por dez tostões. Ainda é cedo, o vapor não parte senão ás 7 horas. Entramos no café Grego e fazemo-nos servir uma chávena de leite ou chá preto.
Os passageiros vêm chegando em multidão ao cais. A ponte dos vapores enche-se de alegres e frescas "toilettes" de manhã. Lisboa madruga para fugir á calma e á sensaboria de um domingo de verão dentro da cidade. Enchem-se os vapores de Cacilhas e de Belém.
Embarcamos, acendemos um charuto, subimos á ponte do vapor. Magnifico espectáculo!
Diante de nós estende-se em toda a sua magestade, como um pequeno Mediterrâneo, o belo Tejo, que cintila sob a bruma aquática como um peito de aço coberto por um véu de gaze, batido pelo largo sol.
Carlos olhava para o Cais do Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken, antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos Negócios Estrangeiros aquilo mesmo: […]
- Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a arrefecer no Aterro...
- Deverras? - exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo estômago e pelo ventre.
E não se quis demorar um instante mais! Como Carlos ia recolher também, ofereceu-lhe um lugar na vitória até ao Ramalhete.
- Venha então jantar connosco, Steinbroken.
- Charmé, mon cher, charmé...
A vitória partiu. E o diplomata, agasalhando as pernas e o estômago num grande "plaid" escocês:
- Pôs, Maia, fezemos um belo passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.
Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o nessa tarde o mais delicioso lugar da terra!
Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as árvores, viu-a logo. […]
Nessa tarde não era a deusa descendo das nuvens de ouro que se enrolavam além sobre o mar; era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
Voltou ainda três vezes ao Aterro, não a tornou a ver; e então envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia assim numa inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da Rampa de Santos ao Cais do Sodré, à espera de uns olhos negros e de uns cabelos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da Royal Mail levaria uma dessas manhãs…
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