Como viera ali, àquele catre, de que sentia um enxergão de palha mole? […] imóvel, com os olhos cerrados, como se nas trevas bestiais em que o seu espírito estava ainda afogado, uma aurora espiritual se levantasse devagar, começou a pensar, a ver diante de si, toda uma paisagem do Mondego por uma tarde de Verão: os salgueirais, espessos, onde a sombra está enleada, e adormecida, os pássaros chalra…
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Como viera ali, àquele catre, de que sentia um enxergão de palha mole? […] imóvel, com os olhos cerrados, como se nas trevas bestiais em que o seu espírito estava ainda afogado, uma aurora espiritual se levantasse devagar, começou a pensar, a ver diante de si, toda uma paisagem do Mondego por uma tarde de Verão: os salgueirais, espessos, onde a sombra está enleada, e adormecida, os pássaros chalram alegremente: nas colinas, duma doçura suave de linhas, casas branquejam: sob o céu dum azul claro, murmuroso, o rio corre, com um vagar saudoso, numa toalha límpida onde pedaços de areia reluzem: alguma coisa de doce, discreto, terno, erra no ar subtil: e, devagar, o bote, onde negrejam batinas, vem bater debaixo dos chorões, contra a entrada melancólica da Quinta das Lágrimas: e então alivia-se passeando com amigos, na doçura pacífica da tarde clara, falando de poetas, recitando versos, ou calado, perdido nalgum cismar que é poético e nobre. Depois via, um pedaço da estrada de Oliveira de Azeméis a Ovar, onde, no fundo de terras baixas, um regato corre, entre altas ervas, todo escuro da sombra que derramam árvores debruçadas: uma frescura eleva-se, da água, da erva verde e sentava-se ali, com um livro, cheio do enternecimento que lhe davam aquela florescência fresca e as águas humildes: patas de insectos riscavam a superfície do ribeiro quase parado: os musgos cobriam as pedras do seu aveludado tenro; e florezinhas azuis, roxas, tímidas, pequeninas, a que não sabia o nome, davam um vago aroma agreste, - às vezes, madressilvas agitadas dum movimento de ar, faziam errar o seu perfume adocicado: um silêncio doce, só com algum gotejar de fio de água, dava um abrigo terno a uma alma delicada - e a sua, dilatava-se ali, enchendo-se da serenidade das coisas, cobrindo-se de transparências, e exalando, como um aroma próprio, uma simpatia ascendente…
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