Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da
areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das col…
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Finalmente, ao lado da Torre de Belem, o mais peregrino entre os mais
bellos monumentos da nossa architectura, estabelece-se o gazometro da
companhia de illuminação a gaz! A esbelta silhueta rendilhada do mais
suggestivo padrão da nossa gloria militar e maritima, já não emerge da
areia loura do Restello, em deslumbradora apotheose, na vasta
luminosidade do ceu e da agua, destacando-se das collinas de Monsanto,
como a alvura de uma hostia em elevação se destaca do fundo de um
retabulo esmeraldado, em altar de ouro fulvo, sob uma abobada azul.
Sacrosanta pela sua expressão moral, como a immaculada estalactite,
formada á beira do mar pela concreção mysteriosa de todas as lagrimas,
de saudade, de ternura, de consternação e de enthusiasmo, choradas por
um povo de embarcadiços; sacrosanta na sua forma artistica, como aquelle
dos monumentos de Portugal, em que o genio lusitano da Renascença, mais
expressivamente se revela como dominador da India, a Torre de Belem
emparceira-se com a chaminé do mais vil e sordido barracão, a qual
sacrilegamente a cuspinha e enodôa com salivadas de um fumo espesso,
gorduroso e indelevel, como se a incomparavel joia d'esse marmore, que o
sol portuguez carinhosamente sobredourara pelos afagos de tres seculos,
houvesse sido tão subtilmente cinzelada pelos artistas manoelinos para
escarrador de mariolas, por cima do qual todavia ainda algumas vezes, em
dias de gala, se desfralda e tremula o pavilhão das quinas, mascarrado
de carvão como um chéché de entrudo.
(...)
Consta no emtanto que brevemente será celebrado em Lisboa o centenario
da India; e da comprehensão que temos d'esse feito culminante da nossa
historia maritima daremos ao extrangeiro um testemunho definitivo,
mostrando o monumento que commemora tal façanha, envolto, como nas
dobras de um crepe, pela fumaçada de uma fabrica, que nós mesmos lhe
puzemos ao pé, para o deshonrar.
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