Eis Caxias e o seu palácio real, residência predilecta do Sr. D. Miguel nos últimos tempos do seu reinado. O desditoso soberano habitava ordinariamente Queluz. Um dia, achando-se aí ocupado a caçar pombos nas terras do infantado, foram participar-lhe que uma esquadra francesa, entrada no Tejo, acabava de apresar todos os nossos navios de guerra a título de indemnização por um insulto de que dois…
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Eis Caxias e o seu palácio real, residência predilecta do Sr. D. Miguel nos últimos tempos do seu reinado. O desditoso soberano habitava ordinariamente Queluz. Um dia, achando-se aí ocupado a caçar pombos nas terras do infantado, foram participar-lhe que uma esquadra francesa, entrada no Tejo, acabava de apresar todos os nossos navios de guerra a título de indemnização por um insulto de que dois franceses haviam sido objecto.
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Os jardins do palácio nesta praia conservam ainda o seu carácter antigo, e são como Queluz um sofrível espécimen das arquitecturas vegetais do século passado, postas em moda por Luís XIV. As avenidas são riscadas por esquadria, em ângulos rectos. A árvore é decotada em forma de coluna, de pirâmide, de obelisco. Os tanques têm molduras altas, lavradas em relevo, como grandes espelhos de salão. As alamedas parecem galerias. As murtas aparadas, lisas, rectas, em volta do pequeno tanque, de um vaso de Le Nôtre, da mesa de mármore, do banco esculpido, semelham os biombos que cercavam a mesa do Rei-Sol, quando nas noites de Inverno ele ceava com as suas damas, à grand couvert, nos salões de Marly-le-Roi. As perspectivas — trompe-l’oeuil — de templos da Glória, de palácios de Alcestes, de jardins de Armida, pintadas nos muros; os azulejos com que se forram os aviários; os embrechados, feitos de conchas, de seixos, de bocadinhos de porcelana, com que se constroem as cascatas; — todas estas superfetações da natureza são um pouco ridículas aos olhos dos paisagistas. Todavia, esses antigos jardins italianos tinham um fim lógico: harmonizar as construções com as paisagens, manter nas salas e nos jardins a mesma arte decorativa, o mesmo espírito de ornato. Cerquem dos nossos modernos jardins ingleses os grandes edifícios maciços, rectangulares, do século passado, e verão a discordância mais flagrante e mais insofrível.
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