Seteais
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Não se tinham visto desde as corridas, o poeta abraçou com efusão o seu Carlos. E falou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Sintra, em Colares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrara do rico dia passado com Carlos e com o maestro em Seteais!... Sintra, uma beleza. Ele, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, tão erudito e tão profundo, apesar da excelente músi…
ver mais
Additional Excerpts
Era já pleno Estio. Os galãs mais ardidos de Lisboa estanceavam por Seteais, por Pisões, e por aquelas várzeas de Colares, a engarrafar lirismo para gastarem por salas nas noites de Inverno.
O primeiro deles que descortinou por entre árvores a formosa brasileira foi alvissarando aos outros a ondina incógnita, que saíra das vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da lua.
Começam os agitados monteiros da estranha caça a circunvagarem nas encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Ifigénia. Uns a viam ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ela perpassava por entre áleas de cilindras para uma gruta fechada como concha de pérola.
A presença de Calisto Elói, confundido com os arbustos floridos da casinha misteriosa, aumentou a curiosidade dos indagadores. Uns consideraram esposa do deputado a bela esquiva; outros aventaram hipóteses mais românticas, mas menos honestas. À primeira conjectura opunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no hotel do Vítor? A segunda conjectura, contraditava outra razão ponderável: se era amante, que descuidado amante era ele, que se encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites - facto averiguado minudenciosamente pelos interessados?
Eram duas horas quando os dois amigos saíram enfim do hotel, a fazer esse passeio a Seteais - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia os presos pediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fechadas, continuando o seu sono de Inverno, entre as árvores já verdes. De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o Castelo da Pena, solitário, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de Abril punha a doçura do seu veludo.
Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos assim que ele tinha na mesa do seu quarto. Tiras brancas
de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, numa massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, naquele solo onde as águas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as ervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida, esbatida
na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um belo esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farrapozinho de névoa, que ficara ali esquecido, e que dormia enovelado e suspenso na luz...
[…]
- Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! - murmurou Cruges, para si mesmo, afastando-se do parapeito.
Carlos erguera-se também, olhava o relógio. Mas antes de deixar Seteais, Cruges quis explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dois velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:
- Bem dizia eu! cá estão eles... E vocês a dizer que não!
Foram-no encontrar triunfante, diante de um montão de penedos, polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outrora, poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava. Então, não dizia ele? Bem dizia ele que em Seteais havia penedos!
- Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, não é que se chama, Alencar?
Mas, ao chegar a Seteais, Cruges teve uma desilusão diante daquele vasto terreiro coberto de erva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno céu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a ideia, de pequeno, que Seteais era um montão pitoresco de rochedos, dominando a profundidade de um vale; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de guitarras... Mas aquilo que ele ali via era um desapontamento.
- A vida é feita de desapontamentos - disse Carlos. Anda para diante!
E apressou o passo através do terreiro, enquanto o maestro, cada vez mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:
- E Vossa Excelência deve sabê-lo, Sr. Maia, porque tem experiência de espanholas!...
Alencar, que se demorara atrás a acender o cigarro, estendeu o ouvido, curioso, quis saber o que era isso de espanholas? O maestro contou-lhe o encontro no Nunes e os furores da Concha.
Iam ambos caminhando por uma das alamedas laterais, verde e fresca, de uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto; a erva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrelada de botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequerzinhos brancos. Nenhuma folha se
movia: através da ramaria ligeira o sol atirava molhos de raios de ouro. O azul parecia recuado a uma distância infinita, repassado de silêncio luminoso; e só se ouvia, às vezes, monótona e dormente, a voz de um cuco nos castanheiros.
Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brasão rococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquela verde solidão - amuada com a vida, desde que dali tinham desaparecido as últimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ia descrevendo ao Alencar a figura do Euzebiozinho, com a chávena de café na mão, a ir pedir perdão à Concha; e a cada momento
o poeta, com o seu grande chapéu panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.
Quando passaram o arco, encontraram Carlos sentado num dos bancos de pedra, fumando pensativamente a sua "cigarrete". O palacete deitava sobre aquele bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do vale subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, falou com nojo do Euzebiozinho. - Aí está uma torpeza que ele nunca cometera, trazer meretrizes a Sintra! Nem a Sintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos a Sintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião daquelas árvores e o amor daquelas sombras…
×