Hotel Central

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; e ele continuava na "chaise-longue", como amolecido nestas recordações, e cedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco, diante das suas pálpebras cerradas, uma visão surgiu, tomou cor, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria numa paz elísia. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro a… ver mais

Additional Excerpts

E em ceroulas o abraçou, num generoso abraço de parabéns. Depois, enquanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das malas — gravatas, peúgas de seda, garrafas de perfumes, conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada… — Um horror! Exclamava o Cavaleiro, aquecendo um ferro de frisar à lâmpada de álcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada. O Central infestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunes, Lisboa!...
E contou-lhe tudo miudamente, difusamente, desde o primeiro encontro, à entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
[…] todas estas delícias perdidas se vinham cravar no coração do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas. Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central. Depois de Santa Apolónia a estrada começou, infindável, desabrigada, batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o seu canto, arrepiados na friagem que entrava pelas gretas da tipóia. Carlos não cessava de ver o casaco branco de veludo, com as duas mangas abertas, como dois braços que se ofereciam... Passava da uma hora quando chegaram à quinta: a sineta do portão, aos puxões do cocheiro encharcado, retumbou lúgubre naquele silêncio escuro de aldeia. Um cão ladrou furiosamente: outros latidos ao longe responderam; e ainda esperaram muito, antes que um criado, sonolento e resmungão, aparecesse com uma lanterna. Uma rua de acácias conduzia à casa: o Ega praguejava, enterrando os seus belos sapatos de veludo no chão lamacento.
No domingo pois, daí a cinco dias, eram as corridas... E «ela» estaria lá, ele ia conhecê-la, enfim! Durante essas três últimas semanas vira-a duas vezes: uma ocasião, estando a conversar com o Taveira à porta do Hotel Central, ela chegara a uma das varandas, de chapéu, calçando uma grande luva preta; de outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ela viera parar à porta do Mourão, ao Chiado, num "coupé" da Companhia, e ficara esperando enquanto o trintanário levava dentro à loja um embrulho que tinha a forma dum cofre, apertado com uma fita vermelha. […] Isto decidiu Dâmaso, que terminou por propor a Carlos o levá-lo uma tarde ao Hotel Central. Carlos porém não queria entrar pelo hotel dentro, de chapéu na mão, atrás do Dâmaso. Resolveram então esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. «Aí, no recinto da pesagem, disse o Dâmaso, a apresentação é mais chique... É mesmo podre de chique.»
O jantar no Central foi adiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a ideia, convertera-o agora numa festa de cerimónia em honra do Cohen. - Janto lá muitas vezes - disse ele a Carlos - estou lá todas as noites... É necessário repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é o que basta. E para o efeito moral, pespego-lhe à mesa o marquês e a besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim… […] Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega teve uma conferência com o "maître d' Hotel" do Central, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquer deles, fosse "à la Cohen"; e ele mesmo sugeriu uma ideia: "tomates farcies à la Cohen"…
Ali ficava pois, aquele imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, tão obtuso que não percebia o enfado dela, a sua regelada secura! E para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calão, e de perna traçada? E de repente lembrou-lhe o que ele lhe dissera na noite do jantar do Ega, à porta do Hotel Central, a respeito da própria Maria Eduarda, e do seu sistema com mulheres «que era o "atracão"». Se aquele idiota, de repente, abrasado e bestial, ousasse um ultraje? A suposição era insensata, talvez - mas reteve-o no pátio, aplicando o ouvido para cima, com ideias ferozes de esperar ali o Dâmaso, proibir-lhe de tornar a subir aquela escada, e, à menor reflexão dele, esmagar-lhe o crânio nas lages... Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e saiu vivamente, no receio de ser assim surpreendido à escuta. O "coupé" do Dâmaso estacionava na rua. Então veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo ele ficaria ali com Maria Eduarda. Correu ao Grémio; e apenas abrira uma vidraça - viu logo o Dâmaso sair do portão, saltar para o "coupé", bater com força a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraçado, e subitamente teve dó daquele grotesco…
Bruscamente, decidido, [Carlos] deu um puxão à campainha. Baptista apareceu todo abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e pronto a ser útil naquela crise que adivinhava... - Baptista, corre ao Hotel Central e pergunta se já entrou o sr. Castro Gomes!... Não, escuta... Põe-te à porta do Central, e espera até que entre aquele sujeito que aqui esteve... Não, é melhor perguntar!... Enfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou está no hotel. E apenas estejas bem certo disso, volta aqui, à desfilada, numa tipóia... Um batedor seguro, que é para me levar depois aos Olivais!…
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fora ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao ângulo, numa dobra simulada, o seu retratozinho em fotografia, um capacete com plumas por cima do nome - DÂMASO CÂNDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras - COMENDADOR DE CRISTO, ao fundo a sua "adresse" - Rua de S. Domingos, à Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais aparatosa - GRAND HÔTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.º 103. Em seguida procurou Carlos no consultório, confiou ao criado outro cartão. Enfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para ele, pendurou-se dele, conseguiu acompanhá-lo ao Ramalhete.
Na manhã seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pé do Ramalhete até à Rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em penumbra a luz distante da clarabóia, uma velha de lenço na cabeça, encolhida num xalesinho preto, esperava, sentada melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava uma parede feia de corredor, forrada de papel amarelo. Dentro um relógio ronceiro estava batendo dez horas. […] Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha um barulho alegre de crianças brincando; por cima, o moço do Cruges esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um longo minuto arrastou-se, depois outro, infindável. A velha, de entre a negrura do lenço, deu um suspirozinho abatido. Lá ao fundo um canário rompera a cantar; e então Carlos, impaciente, puxou o cordão da campainha. […] Correu um reposteiro de repes vermelho, introduziu Carlos numa sala alta, espaçosa, com um papel de ramagens azuis, e duas varandas para a Rua de S. Francisco; e erguendo à pressa os dois transparentes de paninho branco, perguntava a Carlos se Sua Excelência não se lembrava já do Domingos. […] - Obrigado, Domingos, obrigado... Quando ele finalmente saiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta curiosa e lenta pela sala. O soalho fora esteirado de novo. Ao pé da porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre uma estante ao lado, cheia de partituras, de músicas, de jornais ilustrados, pousava um vaso do Japão onde murchavam três belos lírios brancos; todas as cadeiras eram forradas de repes vermelho; e aos pés do sofá estirava-se uma velha pele de tigre. Como no Hotel Central, esta instalação sumária de casa alugada recebera retoques de conforto e de gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede, tinham substituído as clássicas bambinelas de cassa: um pequeno contador árabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio Abraão, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de pelúcia duma mesa oval, colocada ao centro, desaparecia sob lindas encadernações de livros, álbuns, duas taças japonesas de bronze, um cesto para flores de porcelana de Dresda, objectos delicados de arte que não pertenciam decerto à mãe Cruges. E parecia errar ali, acariciando a ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquele indefinido perfume que Carlos já sentira nos quartos do Hotel Central, e em que dominava o jasmim.
Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleràvelmente deserta e triste. Não teve ânimo de voltar ao palácio, nem quis sair mais dali; e arrancando as luvas, passeando em volta da mesa de jantar, onde murchavam os ramos da véspera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vê-la, saciar os seus olhos nela!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procurava ansiosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão perdido: fizera peregrinações ridículas de teatro em teatro: numa manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a ver. Agora sabia-a em Sintra, voava a Sintra, e não a via também. Ela cruzava-o uma tarde, bela como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cair na alma por acaso um dos seus olhares negros, e desaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céu, de ora em diante invisível e sobrenatural: e ele ali ficava, com aquele olhar no coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma adorável desconhecida, de quem ele nada sabia senão que era alta e loira, e que tinha uma cadelinha escocesa... Assim acontece com as estrelas de acaso! Elas não são duma essência diferente, nem contêm mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Ele não a tornara a ver. Outros viam-na. O Taveira vira-a. No Grémio, ouvira um alferes de lanceiros falar dela, perguntar quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Ele não a via, e não sossegava…
Mas Castro Gomes encolhera de leve os ombros, com uma lânguida resignação, como quem atribui tudo à malícia dos Destinos. - São as ridículas cenas da vida... O sr. Carlos da Maia está daí a ver as coisas. É a velha, a clássica história... Há três anos que eu vivo com essa senhora; quando tive o Inverno passado de ir ao Brasil, trouxe-a a Lisboa para não vir sozinho. Fomos para o Hotel Central. Vossa Excelência compreende perfeitamente que eu não fui fazer confidências ao gerente do estabelecimento. Aquela senhora vinha comigo, dormia comigo, portanto, para todos os efeitos do hotel, era minha mulher. Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro Gomes alugou depois uma casa na Rua de S. Francisco; como mulher de Castro Gomes tomou enfim um amante... Deu-se sempre como mulher de Castro Gomes, mesmo nas circunstâncias mais particularmente desagradáveis para Castro Gomes... E, meu Deus! não podemos realmente condená-la muito…
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