Benfica

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Daí a dias fechou-se a casa de Benfica. Afonso da Maia partia com o neto e com todos os criados para a Quinta de Santa Olávia.

Additional Excerpts

Não tardou de resto a falar-se em toda a Lisboa da paixão de Pedro da Maia pela «negreira». Ele também namorou-a publicamente, à antiga, plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos cravados na janela dela, imóvel e pálido de êxtase. Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel — poemas desordenados que ia compor para o Marrare: e ninguém lá ignorava o destino daquelas páginas de linhas encruzadas que se acumulavam diante dele sobre o tabuleiro da genebra. Se algum amigo vinha à porta do café perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito naturalmente: — O sr. D. Pedro? Está a escrever à menina. E ele mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mão, exclamava radiante, com o seu belo e franco sorriso: — Espera aí um bocado, rapaz, estou a escrever à Maria! Os velhos amigos de Afonso da Maia que vinham fazer o seu "whist" a Benfica, sobretudo o Vilaça, o administrador dos Maias, muito zeloso da dignidade da casa, não tardaram em lhe trazer a nova daqueles amores do Pedrinho. Afonso já os suspeitava: via todos os dias um criado da quinta partir com um grande ramo das melhores camélias do jardim; todas as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume de um envelope com sinete de lacre dourado; e não lhe desagradava que um sentimento qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho à estroinice bulhenta, ao jogo, às melancolias sem razão em que reaparecia o negro ripanço…
Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho para a Quinta de Santa Olávia; mas não cessou de chorar no seio dos padres que vinham a Benfica a desgraça da sua casa. E esses santos lá o consolavam, afirmando-lhe que Deus, o velho Deus de Ourique, não permitiria jamais que um Maia pactuasse com Belzebu e com a Revolução! E, à falta de Deus-Padre, lá estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre. E o milagre fez-se. Meses depois, o jacobino, o Marat, voltava de Santa Olávia um pouco contrito, enfastiado sobretudo daquela solidão, onde os chás do brigadeiro Sena eram ainda mais tristes que o terço das primas Cunhas. Vinha pedir ao pai a bênção, e alguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse país de vivos prados e de cabelos de ouro, de que lhe falara tanto a tia Fanny. O pai beijou-o, todo em lágrimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercessão de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo frei Jerónimo da Conceição, seu confessor, declarou este milagre — não inferior ao de Carnaxide. Afonso partiu. […] Bem depressa esqueceu o seu ódio aos sorumbáticos padres da Congregação, as horas ardentes passadas no café dos Remolares a recitar Mirabeau, e a república que quisera fundar, clássica e voltairiana, com um triunvirato de Cipiões e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da Abrilada estava ele nas corridas de Epson, no alto de uma sege de posta, com um grande nariz postiço, dando hurras medonhos — bem indiferente aos seus irmãos de Maçonaria, que a essas horas o senhor infante espicaçava a chuço, pelas vielas do Bairro Alto, no seu rijo cavalo de Alter. Seu pai morreu de súbito, ele teve de regressar a Lisboa. Foi então que conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ela. Teve um filho, desejou outros; e começou logo, com belas ideias de patriarca moço, a fazer obras no palacete de Benfica, a plantar em redor arvoredos, preparando tectos e sombras à descendência amada que lhe encantaria a velhice.
Mas não esquecia a Inglaterra: — e tornava-lha mais apetecida essa Lisboa miguelista que ele via, desordenada como uma Tunes barbaresca; essa rude conjuração apostólica de frades e boleeiros, atroando tabernas e capelas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do lausperene para o curro, e ansiando tumultuosamente pelo príncipe que lhe encarnava tão bem os vícios e as paixões… Este espectáculo indignava Afonso da Maia; e muitas vezes, na paz do serão, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignação da sua alma honesta. Já não exigia decerto, como em rapaz, uma Lisboa de Catões e de Múcios Cévolas. Já admitia mesmo o esforço de uma nobreza para manter o seu privilégio histórico; mas então queria uma nobreza inteligente e digna, como a aristocracia "tory" (que o seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealizar), dando em tudo a direcção moral, formando os costumes e inspirando a literatura, vivendo com fausto e falando com gosto, exemplo de ideias altas e espelho de maneiras patrícias... O que não tolerava era o mundo de Queluz, bestial e sórdido. Tais palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as Cortes Gerais, a polícia invadiu Benfica, «a procurar papéis e armas escondidas». Afonso da Maia, com o seu filho nos braços e a mulher tremendo ao lado — viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas pela coronha das escopetas, as mãos sujas do malsim rebuscando os colchões do seu leito. O senhor juiz de fora não descobriu nada; aceitou mesmo na copa um cálice de vinho, e confessou ao mordomo «que os tempos iam bem duros...». Desde essa manhã as janelas do palacete conservaram-se cerradas; não se abriu mais o portão nobre para sair o coche da senhora; e daí a semanas, com a mulher e com o filho, Afonso da Maia partia para Inglaterra e para o exílio.
As velas iam-se consumindo. Um cansaço pesava. Baptista fez servir café no bilhar. E aí, apenas recebeu a sua chávena, Alencar, cercado do Cruges, do Taveira, do Vilaça, rompeu a falar também do passado, dos tempos brilhantes de Arroios, dos rapazes ardentes de então: - Vejam vocês, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas de leões, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo neste desgraçado país!... Foi-se a faisca, foi-se a paixão... Afonso da Maia! Parece que o estou a ver, à janela do palácio em Benfica, com a sua grande gravata de cetim, aquela cara nobre de português de outrora... E lá vai! E o meu pobre Pedro também... Caramba, até se me faz a alma negra!
«Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assinar Maria Calzaski, por supor ser esse o nome de seu pai, é portuguesa e filha de meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a comigo para Viena, depois para Paris, e que agora vive em companhia de Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu marido era meu sogro Afonso da Maia, viúvo, que vivia em Benfica e também em Santa Olavia ao pé do rio Douro.»
[Pedro] Saiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para que o pai ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao Hotel Europa. Dois dias depois Vilaça entrou em Benfica, com as lágrimas nos olhos, contando que o menino casara nessa madrugada — e segundo lhe dissera o Sérgio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Itália. Afonso da Maia sentara-se nesse instante à mesa do almoço, posta ao pé do fogão: ao centro, um ramo esfolhava-se num vaso do Japão, à chama forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o número da «Grinalda», jornal de versos que ele costumava receber... Afonso ouviu o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu guardanapo. […] Vilaça sentara-se. Tudo em redor era correcto e calmo como nas outras manhãs em que almoçara em Benfica. Os passos do escudeiro não faziam ruído no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques de oiro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fora no azul de Inverno fazia cintilar cristais de geada nas ramas secas; e à janela o papagaio, muito patuleia e educado por Pedro, rosnava injúrias aos Cabrais. Por fim Afonso ergueu-se; esteve olhando abstraidamente a quinta, os pavões no terraço; depois ao sair da sala tomou o braço de Vilaça, apoiou-se nele com força, como se lhe tivesse chegado a primeira tremura da velhice, e no seu abandono sentisse ali uma amizade segura. Seguiram o corredor, calados. Na livraria Afonso foi ocupar a sua poltrona ao pé da janela, começou a encher devagar o seu cachimbo. Vilaça, de cabeça baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas pontas dos pés, como no quarto de um doente. Um bando de pardais veio gralhar um momento nos ramos de uma alta árvore que roçava a varanda.
Mas a triste senhora continuava a choramingar. O que realmente apetecia era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as procissões passando num rumor de pachorrenta penitência por tardes de sol e de poeira… Foi necessário calmá-la, voltar a Benfica. Aí começou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente, todos os dias mais pálida, levando semanas imóvel sobre o canapé, com as mãos transparentes cruzadas sobre as suas grossas peles de Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se daquela alma aterrada para quem Deus era um amo feroz, tornara-se o grande homem da casa. De resto Afonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras canónicas, de capote e solidéu, em que reconhecia antigos franciscanos, ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio de sacristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente vago, um rumor de ladainha. Todos aqueles santos varões comiam, bebiam o seu vinho do Porto na copa. As contas do administrador apareciam sobrecarregadas com as mesadas piedosas que dava a senhora: um frei Patrício surripiara-lhe duzentas missas de cruzado por alma do senhor D. José I… Esta carolice que o cercava ia lançando Afonso num ateísmo rancoroso: quereria as igrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a machado, uma matança de reverendos… Quando sentia na casa a voz das rezas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o coronel Sequeira, que vivia numa quinta a Queluz. […] O menino [Pedro da Maia] continuou em Benfica, dando os seus lentos passeios a cavalo, de criado de farda atrás, começando já a ir beber a sua genebra aos botequins de Lisboa…
Ao fim de um ano de distúrbios no Marrare, de façanhas nas esperas de toiros, de cavalos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, começaram a reaparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas salas, ou sob alguma árvore da quinta todo estirado de bruços, como despenhado num fundo de amargura. Nesses períodos tornava-se também devoto: lia «Vidas de Santos», visitava o lausperene: eram desses bruscos abatimentos de alma que outrora levavam os fracos aos mosteiros. Isto penalizava Afonso da Maia: preferia saber que ele recolhera de Lisboa, de madrugada, exausto e bêbedo, — do que vê-lo, de ripanço debaixo do braço, com um ar velho, marchando para a igreja de Benfica.
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