Celorico de Basto

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divã, mostrando as estrelinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a história do seu exílio em Celorico, onde se distraía compondo sermões para o abade: o abade recitava-os; e os sermões, sob uma forma mística, eram de facto afirmações revolucionárias que o santo varão lançava com fervor, esmurrando o púlpito... A senhora de vermelho, sentada defro… ver mais

Additional Excerpts

[…] Era o Ega que assim fazia rir a baronesa, sentado defronte dela, falando outra vez de Celorico, contando-lhe uma "soirée" de Celorico, com detalhes picarescos sobre as autoridades, e sobre um abade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentais ao piano. A senhora de escarlate, no sofá ao lado, com os braços caídos no regaço, pasmava para aquela veia do Ega como para as destrezas de um palhaço.
Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente - ora reprovado, ora perdendo o ano. Sua mãe, rica, viúva e beata, retirada numa quinta ao pé de Celorico de Basto com uma filha, beata, viúva e rica também, tinha apenas uma noção vaga do que o Joãozinho fizera, todo esse tempo, em Coimbra. O capelão afirmava-lhe que tudo havia de acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o papá e como o titi: e esta promessa bastava à boa senhora, que se ocupava sobretudo da sua doença de entranhas e dos confortos desse padre Serafim. Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da quinta, que ele escandalizava com a sua irreligião e as suas facécias heréticas. João da Ega, com efeito, era considerado não só em Celorico, mas também na Academia, que ele espantava pela audácia e pelos ditos, como o maior ateu, o maior demagogo, que jamais aparecera nas sociedades humanas.
Carlos ficou só com a senhora condessa, que reocupara a sua cadeira cor-de-rosa. Imediatamente ela perguntou pelo Ega. - Coitado, lá está para Celorico. Ela protestou, com um lindo riso, contra aquela frase tão feia «lá está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma melhor oração fúnebre. Celorico era horrível para um fim de romance…
Então Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olávia precisava fazer uma romagem à quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar à mãe algumas letras de crédito…
Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade: - Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola. […] Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, num momento de guerra europeia, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnização, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galiza estendida até ao Douro... - "Poulet aux champignons" - murmurou o criado, apresentando-lhe a travessa. E em quanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele a salvação do país, nessa catástrofe que tornaria povoação espanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heróis, berço dos Egas…
Foi uma dessas manhãs que preguiçando assim no sofá com a «Revista dos Dois Mundos» na mão, ele ouviu um rumor na antecâmara, e logo uma voz bem conhecida, bem querida, que dizia por trás do reposteiro: - Sua Alteza Real está visível? - Oh! Ega! - gritou Carlos, dando um salto do sofá. E caíram nos braços um do outro, beijando-se na face, enternecidos. - Quando chegaste tu? - Esta manhã. Caramba! - exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos ombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o enfim no olho. Caramba! Tu vens esplêndido desses Londres, dessas civilizações superiores. Estás com um ar Renascença, um ar Valois... Não há nada como a barba toda! Carlos ria, abraçando-o outra vez. - E de onde vens tu, de Celorico? - Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O fígado, o baço, uma infinidade de vísceras comprometidas. Enfim, doze anos de vinhos e águas-ardentes... Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligência, às várzeas de Celorico, o adeus de eternidade. - Imagina tu, Carlos, amigo, a história deliciosa que me sucede com minha mãe... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não caiu! Fiquei na quinta, fazendo epigramas ao padre Serafim e a toda a corte do céu. Chega Julho, e aparece nos arredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diftéricas... A mamã salta imediatamente à conclusão que é a minha presença, a presença do ateu, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minha irmã concorda. Consultam o padre Serafim. O homem, que não gosta de me ver na quinta, diz que é possível que haja indignação do Senhor - e minha mãe vem pedir-me quase de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruíne, mas que não esteja ali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz... - E a epidemia... - Desapareceu logo - disse o Ega - começando a puxar devagar dos dedos magros uma longa luva cor de canário.
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