Rua de São Marçal
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
O conde de Gouvarinho bateu no ombro de Carlos, carinhosamente. E durante um momento a condessa ficou ali conversando, de pé, a deixar-se serenar, pouco a pouco, naquela penumbra favorável, antes de afrontar a luz forte da sala. Depois, por se falar em higiene, convidou o Sr. Sousa Neto para
uma partida de bilhar; mas o Sr. Neto, desde Coimbra, desde a Universidade, não pegara num taco. E ia-se ch…
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Additional Excerpts
[…] Nessa tarde lá tinham voltado as palavras que ela balbuciava, caída sobre o seu peito, com os olhos afogados numa ternura suplicante: Se tu quisesses! que felizes que seríamos! que vida adorável! ambos sós!... E isto era claro - a condessa concebera a ideia extravagante de fugir com ele, ir viver num sonho eterno de amor lírico, nalgum canto do mundo, o mais longe possível da Rua de S. Marçal! Se tu quisesses! Não, com mil demónios, não queria fugir com a senhora condessa de Gouvarinho!...
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a marquesa de Soutal, para o repreender por ele não ter aparecido terça-feira na Rua de S. Marçal. Surpreendido com tanto interesse, tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, fora o seu infortúnio,
tinham-se metido umas coisas…
Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou do braço, arrastou-o à Rua de S. Marçal, instalou-o numa poltrona, no seu escritório, e leu-lhe um artigo que destinava ao «Jornal do Comércio» sobre
a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o a jantar. Na tarde seguinte eles tinham uma partida de "croquet". Carlos foi. E, a uma janela, aberta sobre o jardim, teve um momento de intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabelos dela o tinham encantado, a primeira vez que a vira.
Na antecâmara o relógio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir ao quarto do Ega. Mas nesse instante o correio chegava, com a «Revista dos Dois Mundos», e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos acabava de a ler - quando o Ega apareceu, de jaquetão, e em chinelas.
- Tenho a falar-te numa coisa grave, menino.
- Lê isto primeiro, disse o outro - passando-lhe a carta da Gouvarinho.
A Gouvarinho, num tom amargo, queixava-se que, já por duas vezes, Carlos faltara ao "rendez-vous" em casa da titi, sem lhe ter sequer escrito uma palavra; ela vira nisto uma ofensa, uma brutalidade; e vinha agora intimá-lo, «em nome de todos os sacrifícios que por ele fizera», a que aparecesse na Rua
de S. Marçal, domingo ao meio dia, para terem uma explicação definitiva antes de ela partir para Sintra.
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