Aterro
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais conhaque. Depois Cohen saiu levando o Ega. Dâmaso e Alencar desceram com Carlos - que ia recolher a pé pelo Aterro.
À porta, o poeta parou com solenidade.
- Filhos - exclamou ele tirando o chapéu e refrescando largamente a fronte - então? Parece-me que me portei como um "gentleman"!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
- Estimo bem…
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Additional Excerpts
Em compensação aí temos o Aterro, com as suas altas e esguias chaminés empenachadas de fumo, a fabrica de gelo artificial, o gazometro, a oficina de serração a vapor. Lá está o Grande Hotel Central, com a sua casa de banhos e o seu restaurante francês. Mais acima, a bandeira ingleza tremula na larga varanda do Bragance Hotel. Carruagens de New-York, puxadas por mulas brasileiras, rolam aparatosamente sobre o carril americano e salpicam o cais com as suas alegres cores ambulantes. — O que tudo prova que alguma coisa se tem feito no mundo nestes três séculos que nós temos passado a recordar que foi por nosso intermédio que as naus da Índia trouxeram à Europa as pimentas de Ceilão.
O Darque, que era parente do Gouvarinho, quis saber como o amigo Gastão se ia dando com os encargos do Poder... O conde declarou para os lados que não fizera mais, por ora, do que passar em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De resto, em questões de trabalho, o Ministério fora infelicíssimo! O presidente do Conselho de cama com uma catarreira, inútil para uma semana. Agora o colega da Fazenda com as febres do Aterro...
- Está melhor? Já sai? - foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
- Está na mesma, vai amanhã para o Dafundo. Mas realmente esse não se acha de todo inutilizado. Ainda ontem eu lhe dizia: «Você parte para o Dafundo, leva os seus papéis, os seus documentos... Pela manhã dá os seus passeios, respira o bom ar... E à noite, depois de jantar, à luz do candeeiro, entretem-se a resolver a questão da Fazenda!»
Uma campainha retiniu. D. José Sequeira, escarlate de azáfama, veio, furando, anunciar a Sua Excelência o fim do intervalo - oferecer o braço à senhora condessa. Ao passar, ela lembrou a Carlos as suas «terças-feiras», com a delicada simplicidade dum dever. Ele curvou-se em silêncio. Era como se
todo o passado, o sofá que rolava, a casa da titi em Santa Isabel, as tipóias em que ela deixava o seu cheiro de verbena - fossem coisas lidas por ambos num livro e por ambos esquecidas. Atrás, o marido seguiu, erguendo alto a cabeça e as lunetas, como representante do Poder naquela festa da Inteligência.
Mas nessa noite o grande fraseador [Ega] continuou:
- Ah o velho Hugo! o velho Hugo é o campeão heróico de verdades eternas... É necessário um bocado de ideal, que diabo!... De resto o ideal pode ser real...
E foi, com esta palinódia, acordando os silêncios do Aterro.
E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, ele evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fora, estivera para lhe dizer: - Podes falar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ela fugiu com um italiano!
Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro aproximava-se, caminhando depressa, uma senhora - que ele reconheceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadelinha cor de prata que lhe trotava junto às saias, e por aquele corpo maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de mármore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa.
Depois do jantar Carlos percorreu o «Figaro», folheou um volume de Byron, bateu carambolas solitárias no bilhar, assobiou malaguenhas no terraço - e terminou por sair, sem destino, para os lados do Aterro. O Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na Rua de S. Francisco. As janelas de Maria Eduarda estavam também abertas e negras. Subiu ao andar do Cruges. O menino Vitorino não estava em casa...
Amaldiçoando o Ega, entrou no Grémio. Encontrou o Taveira, de paletó ao ombro, lendo os telegramas. Não havia nada novo por essa velha Europa; apenas mais uns nihilistas enforcados; e ele Taveira ia ao Price...
- Vem tu também daí, Carlinhos! Tens lá uma mulher bonita que se mete na água com cobras e crocodilos... Eu pelo-me por estas mulheres de bichos!... Que esta é difícil, traz um chulo... Mas eu já lhe escrevi: e ela faz-me um bocado de olho de dentro da tina.
Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo falou-lhe logo do Dâmaso. Não tornara a ver essa flor? Pois essa flor andava apregoando por toda a parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo explicações humildes, covardes... Terrível, aquele Dâmaso! Tinha figura, interior, e natureza de péla! Com quanto mais força se atirava ao chão, mais ele ressaltava para o ar, triunfante!...
Carlos ao outro dia não saiu de casa, esperando um recado, faiscando de impaciência. Nenhum recado veio. E, duas tardes depois, ao descer para o Aterro - o primeiro encontro que teve, às Janelas Verdes, foi o Castro Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadelinha no colo.
Chegara ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escuridão. Por ali entraria em breve
do Brasil, o outro - que nas suas cartas se esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se ele não voltasse! Uma onda providencial podia levá-lo... Tudo se tornaria tão fácil, perfeito e límpido! De que servia na vida esse ressequido? Era como um saco vazio que caísse ao mar! Ah, se ele morresse!... E esquecia-se, enlevado numa visão em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre, serena, sorrindo e coberta de luto…
Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a história da imundície. Fora na véspera à tarde que recebera no Ramalhete a «Corneta». Ele já conhecia o papelucho, já privara mesmo com o proprietário e redactor - o Palma, chamado Palma «Cavalão» para se distinguir de outro benemérito chamado
Palma «Cavalinho». Compreendeu logo que, se a prosa era do Palma, a inspiração era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da Rua de S. Francisco, nem da Toca... Não era natural que escrevesse por deleite intelectual um documento que só lhe podia render desgostos e
bengaladas. O artigo, pois, fora-lhe simplesmente encomendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este sólido princípio correra a procurar o Palma «Cavalão» no seu antro.
Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, abafado numa mantilha de renda, debruçou-se, perturbado, balbuciou:
- É só um instante! Quero-lhe falar!
Que alívio! Era a Gouvarinho! Então, na sua indignação, Carlos foi brutal.
- Que diabo de tolice é esta? Que quer?
Ia bater com a portinhola; ela empurrou-a para fora, desesperada; e não se conteve, desabafou logo ali, diante do cocheiro, que mexia tranquilamente na fivela dum tirante.
- De quem é a culpa? Para que me trata deste modo?... É só um instante, entre, tenho de lhe falar!...
Carlos saltou para dentro, furioso:
- Dá uma volta pelo Aterro - gritou ao cocheiro. - Devagar!
O velho calhambeque desceu a calçada; e durante um momento, na escuridão, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas palavras, bruscas e coléricas, através do barulho das vidraças.
- Que imprudência! Que tolice!...
- E de quem é a culpa? De quem é a culpa?
Depois, na Rampa de Santos, o "coupé" rolou mais silenciosamente no macadame. Carlos então, arrependido da sua dureza, voltou-se para ela, e com brandura, quase no tom carinhoso de outrora, repreendeu-a por aquela imprudência... Pois não era melhor ter-lhe escrito?
- Para quê? - exclamou ela. - Para não me responder? Para não fazer caso das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma esmola!...
Sufocava, arrancou a mantilha da cabeça. No vagaroso rolar do "coupé", sem ruído, ao longo do rio, Carlos sentia a respiração dela, tumultuosa e cheia de angústia. E não dizia nada, imóvel, num infinito mal-estar, entrevendo confusamente, através do vidro embaciado, na sombra triste do rio adormecido, as mastreações vagas de faluas. A parelha parecia ir adormecendo; e as queixas dela desenrolavam-se, profundas, mordentes, repassadas de amargura.
- Peço-lhe que venha a Santa Isabel, não vem... Escrevo-lhe, não me responde... Quero ter uma explicação franca consigo, não aparece... Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas não pude, não pude!...
Quis saber o que lhe tinha feito. O que é isto? Que lhe fiz eu?
Pelo Aterro, por entre a poeira de Verão e o ruído das carroças, o que ele [Carlos] via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: por vezes uma frase que ela [Maria Eduarda] dissera cantava-lhe na memória, com o tom de ouro da sua voz […]
Mas a tipóia não continuava. Então Carlos desprendeu um braço, desceu o vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo à ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera à porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentação de descer, acabar ali bruscamente aquele longo tormento. Mas pareceu-lhe uma brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
- Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
A tipóia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de novo as pedras da calçada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais suavemente, desceram a Rampa de Santos.
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