Rio Tejo

Alexandre Herculano — Cenas de um Ano da Minha Vida. Poesia e Meditação. [1831-1832]. Apontamentos de Viagem [1853-1854]
Ao sair de Santarém as imediações do rio oferecem uma paisagem deliciosa. Na margem esquerda, à nossa direita, os campos de Almeirim estendem-se a vasta distância, ornados de renques e grupos de arvoredos que bordam os campos, ou se elevam em maceiros verdejantes por entre as planícies cobertas de searas e de pastagens, planícies que se dilatam para o lado de Alpiarça. O leito do Tejo vai-se gradu… ver mais

Additional Excerpts

[Junho 9] - O Castelo de Almourol (ficou o Guerra de dar a descrição gráfica) distância, largura do rio, etc. O efeito é o mais pitoresco possível, descrição. Adiante de Almourol ao dobrar uma ponta de terra descobre-se de repente no horizonte um desses muitos anfiteatros pitorescos que resultam das voltas do Tejo. É singular este por uma árvore gigante perfeitamente copada como uma bela laranjeira, mas que se eleva no meio da paisagem, semelhante a um outeiro de verdura erguido sobre uma coluna colossal. Se o vulto desmesurado que essa árvore apresenta não é um efeito da perspectiva, uma ilusão óptica, ela seria talvez a maior árvore de Portugal. Castelo de Almourol. Visto do lado nascente parece a proa dum navio. Cheios de frestas ou seteiras os muros e torres para este lado, talvez por ser acessível. Como subimos lá: viagem dentro do castelo – as peles de cobras supostas, as boninas dos arredores – os cactos gigantes -a inscrição da porta da cerca interior:- ERA M.CC. VIIII. A MAGISTER GAUDINUS BRACARA QUE EST CAPUT GALLECIE ORTUS EDIFICAVIT HOC CASTRUM ALMOIREL CUM FRATRIBUS SUIS - Uma cruz do templo sobre uma janela da torre de menagem na face do norte.
Ainda ontem, rodeados de tantos amigos, nós subíamos o Tejo, em volta da mesa de um agradável almoço, e assentados depois à popa do barco de vapor, símbolo da rapidez em toda a parte, e só em Portugal símbolo da lentidão. O vento fresco do norte aumentava a morosidade do ronceiro navio, donde podíamos contemplar pausadamente essa soberba margem direita do Tejo, longa campina ladeada por uma cordilheira contínua mas pouco elevada, cujos cimos flexuosos se coroam de olivedos, campeando sobre as vinhas das encostas e sobre os campos e pomares das planícies. Alhandra, Vila Franca, Alverca, Vila Nova passaram sucessivamente por nós com os seus edifícios caiados, semelhantes a grandes estendais postos nas clareiras, e cuja alvura o sol esplêndido da nossa terra quase fazia cintilar. No Tejo cruzavam em diversas direcções dezenas de velas arredondadas pela brisa fresca. As manadas de touros, parados gravemente pela margem, ou metidos na água por entre os caniços e juncais, pareciam observar o movimento do rio, que alguns atravessavam, ora a nado, ora com água pelos peitos, para o próximo mouchão, terrenos seus meneios lentos, no seu olhar tranquilo ninguém lhes adivinhana a nativa ferocidade. Na limpidez do céu, nas tintas cambiantes das terras calvas, nos verdes variados da vegetação, no murmúrio do vento havia uma harmonia de paz; havia vida sem tempestade.
O espaço que retrocedêramos galgámo-lo de novo em breve tempo; mas da banda do oriente o grande vulto da noite, escondido ainda detrás das cumeadas das serras mais distantes, sacudia já do seu manto para o céu algumas sombras vagas que se enovelavam com as frouxas ondas da luz que esmorecia. Contávamos com chegar ainda ontem à Barquinha, mas foi vã a nossa esperança. O vento saltou de repente a nordeste e descaiu em calma. Estávamos além da foz do Almonda e seguíamos ao longo dos extensos arvoredos que bordam as chamadas Praias do Infantado, e que mascaram as planícies da Golegã, quando Manuel Consolado declarou que não poderíamos passar com dia além da Chamusca. A povoação alveja a pouca distância sobre uma encosta para o interior na margem esquerda do rio. Nem uma aragem contrastava a corrente, que os remeiros rompiam a custo, e o Sol não devia tardar a desaparecer no horizonte.
7 de Junho. […] - Da foz do Alviela à foz do Almonda ambas as margens oferecem duas linhas de salgueiros que se prolongam para o interior nalguns pequenos outeiros que se elevam com ondulações suaves. O vento refresca de nor-noroeste. Quando nos aproximávamos do confluente do Almonda com o Tejo, apareceu-nos na margem direita um rapaz que bradava correndo e após ele rompeu dentre os salgueiros um homem que mostrava nos gestos extrema aflição: abicamos à praia: o homem e o rapaz de mãos postas pediam que lhes valessem. Eram dois náufragos. Obra de meia légua pelo rio abaixo um barco de trigo tinha aberto água batendo contra o tronco submergido de árvore arrastada pela última cheia. Voltámos atrás. Quando chegámos ao lugar do naufrágio, o barco estava soçobrado. Socorros. Demorámo-nos perto de três horas.
A Alcáçova, meu amigo, é não só a parte mais antiga, mas também a mais arruinada e deserta da vila. Por essas quelhas estreitas, tortuosas, mal-gradadas topam-se a cada momento casas sem tectos, muros que desabam, pardieiros afumados pela mão do tempo, tudo no meio de quase completa solidão. É preciso volver os olhos ao longe para desoprimir o ânimo, porque os territórios que se descobrem daquele ponto são tão ridentes e cheios de vida como a Alcáçova é melancólica e morta. Na raiz do monte a veia flexuosa do rio cruzado de barcos. Defronte os campos de Almeirim orlados no fundo do quadro de olivedos e bosques extensos, e sobre a elevação, além, o convento abandonado dos dominicanos da serra. A noroeste as campinas de Alpiarça, e a Chamusca branquejando na encosta por entre os arvoredos. Na proximidade, à beira do Tejo, na margem direita, as hortas das Onias verdejando viçosas, e mais ao norte os campos de Alvisquer. À direita deles as águas do Tejo dilacerado no seu curso, ora dormente nas valas, ora escoando-se por entre as ínsuas e mouchões. Nos longes mais remotos montanhas, ou terrenos vigorosamente acidentados, e tudo isto tingido pelos mil cambiantes das cores que a luz mistura nos infinitos planos de um território desigual, montuoso, e ora calvo, ora coberto de vinhas, olivais e matos rasteiros. Aquele panorama delicioso e imenso dava-nos, pelo sentimento da vida e da actividade, energia para contemplarmos, senão com indiferença, ao menos com impassibilidade, esse montão de ruínas quase desertas por meio das quais vagueávamos. Dos antigos edifícios que a mão do homem tem abandonado, ou, o que pior é, injuriado com sucessivas reformas dentro da Alcáçova de Santarém, o mais notável é a Igreja de Santa Maria. Não que o aspecto do templo nos revele a época em que foi fundado: nada há nas suas linhas arquitectónicas que não seja de dois dias. É um casarão ao divino esquadriado, caiado, prosaico e mesquinho. Nem sequer tem a majestade das grandes dimensões. Uma inscrição do séc. XII, gravada em mármore branco sobre a porta principal, é que nos ajuda a substituir pela imaginação o que essas pilastras e paredões lisos e massudos, essas portas sem elegância e sem arte, esses telhados de armazém não podem dizer-nos. É ela que nos faz galgar por cima das sucessivas restaurações e dos vandalismos de não sei quantas gerações de cónegos, para reconstruirmos a velha igreja aí fundada pelos Templários, sete anos apenas depois da conquista da vila.
Nada mais incerto do que o seu curso durante o Estio, desde a Barquinha para baixo. No leito movediço por onde se espreguiça, ninguém pode dizer onde passará amanhã a grossa artéria que passa hoje aqui, ou que ele se não bifurque por dois canais diversos, ou que finalmente não deixe uma restinga de areia hoje e um canal mais ou menos profundo. Entre o navegante do Tejo e o seu baixelzinho realiza-se na expressão mais absoluta o famoso princípio de Bastia, a mutualidade dos serviços. Agora o barco leva o barqueiro; logo carrega o barqueiro com o barco. O barco do Tejo é nos últimos meses do Verão uma espécie de nababo índio: gosta de viajar em colo de homens. Mas ao menos os párias da Índia conduzem o palanquim a pé enxuto: o pária do Tejo para exercer o seu triste mister tem de patinhar, metido até ao joelho, no leito das Tágides gentis. O barqueiro destas paragens é no Estio uma espécie de ictiossauro, do anfíbio antediluviano que na estação invernosa desce aos tempos históricos e se incorpora de novo nas fileiras da humanidade. O facto que nos compelira a descer a veia de água resumia-se em pouco. Um barco de cereais tinha-se aproximado demasiadamente da margem com a sua pesada carga. A corrente era impetuosa, apesar de diminuído o volume das águas pela estiagem. Uma árvore trazida pelas cheias do Inverno, submergida junto à margem, estendia o cepo e as longas raízes para o canal. O barco varou naquele cachopo do lenho, abriu e começou a afundar-se. Felizmente o abismo não era o do oceano: reduzia-se a poucos palmos de profundidade.
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