Acordou com um estremeção: uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado: - Alhandra! Alhandra!
Um ar lívido de madrugada clareava através da neblina chuvosa: saloios de varapau, encolhidos nas mantas listradas, passavam na plataforma; descarregavam-se caixotes: um comboio de mercadorias rolou ao lado, com "wagons" carregados de pipas, outros gradeados donde saíam cornos de bois. Depois um cria…
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Acordou com um estremeção: uma voz ia dizendo ao comprido do comboio parado: - Alhandra! Alhandra!
Um ar lívido de madrugada clareava através da neblina chuvosa: saloios de varapau, encolhidos nas mantas listradas, passavam na plataforma; descarregavam-se caixotes: um comboio de mercadorias rolou ao lado, com "wagons" carregados de pipas, outros gradeados donde saíam cornos de bois. Depois um criado de farda passou correndo com um ramo de flores na mão. Então, o coração de Artur bateu, invadido duma alegria àquela proximidade de Lisboa.
O comboio partiu: pareceu-lhe avistar através da névoa uma superfície de rio cor de aço: depois um campo de oliveiras correu ao lado - e os seus olhos, fixos no vidro embaciado, foram-se cerrando, na fadiga daquela madrugada fria.
- Póvoa! Póvoa!
Despertou. O sujeito de peliça, sentado, espreguiçava-se.
- Ora enfim! "Nous voilà"!
Ergueu-se, ajeitou a peliça, pôs um chapéu de casimira; e entreabrindo o cesto do "pug":
- Amor, estamos no fim dos nossos trabalhos. Como tem dormido, o amigo John? Hein! Chegámos, percebeu?... Aqui está na pátria de Luiz de Camões!...
Voltou-se para Artur, rindo do seu gracejo:
- Não é má, hein? - E repetiu ao "pug", que gania: Aqui estamos, na pátria de Camões!
A máquina silvava. E Artur, excitado, via agora à esquerda estender-se o rio largo e baço, agitado sob o vento: os montes da Outra Banda, confundiam-se com o empastamento das nuvens: uma falua de vela cheia, cortava a espuma à bolina, na manhã áspera. Ele devorava com os olhos, aquelas vizinhanças de Lisboa: era fachada suja de casa que passava, uma pilha de madeira, uma alta chaminé de tijolo. Nos Olivais, o sujeito de peliça, julgando ver um amigo entre a gente na plataforma, precipitou-se à portinhola, gritando:
- Oh Visconde, oh Visconde.
Mas o comboio partiu: antigos "wagons" desmantelados, depois um alpendre com fardos correu ao lado -e um empregado todo molhado, abrindo vivamente a portinhola, recolheu à pressa os bilhetes.
Artur palpitava todo. Lisboa! Era enfim Lisboa! Abaixava a vidraça, e o ar parecia-lhe cheio duma vida mais intensa, todo penetrado da respiração larga da cidade que ainda dormia na manhã húmida.
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