[…] Artur viu ao lado o republicano Nazareno, que com a chávena cheia defronte, fumava, a cabeça encostada à parede, as lunetas escuras reluzindo sombriamente. Os burgueses do Universal tinham-no indignado tanto, que sentiu um impulso, uma simpatia para aquele homem hostil à burguesia, que falava nos clubs contra ela, que lhe preparava a morte: depois das faces alvares que tinham rido ao "calembou…
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[…] Artur viu ao lado o republicano Nazareno, que com a chávena cheia defronte, fumava, a cabeça encostada à parede, as lunetas escuras reluzindo sombriamente. Os burgueses do Universal tinham-no indignado tanto, que sentiu um impulso, uma simpatia para aquele homem hostil à burguesia, que falava nos clubs contra ela, que lhe preparava a morte: depois das faces alvares que tinham rido ao "calembourg" do Bento Correia, achava uma alta expressão inteligente, crítica, naquela fisionomia seca de jacobino que tomava o seu café com uma mansidão filosófica. Como o seu drama, que era a glorificação democrática do génio plebeu – agradaria àquele republicano, àquele igualitário! Parecia-lhe agora que os Carvalhosas, os Padilhões, queriam amesquinhar o seu drama, por sentir nele um grande sopro revolucionário: indignou-se contra os conservadores, os Bentos Correias: decidiu-se servir as ideias do Nazareno, dramatizá-las. Desejaria conhecê-lo, desabafar com ele, dizerem mal, odiosamente mal, da canalha que lá em cima, no Universal, lambia os bigodes da humidade do café, partindo apaticamente nozes, no enfastiamento duma nutrição cara. Procurava um meio de lhe falar, quando o Nazareno pediu ao criado a "Revolução de Setembro", que estava diante de Artur, aberta, enxovalhada: apressou-se a dar-lha meio erguido, sorrindo: o republicano agradeceu, com um movimento reservado, percorreu o jornal um momento, atirou-o pra o lado, com desdém, e bebeu os últimos goles de café. Aquele gesto, encantou Artur: mostrava desprezo pela literatura dos Romas, dos Xavieres, da canalha! E pediu outro café, demorando-se, esperando um incidente, um olhar, alguma palavra casual, que os reunisse. Mas Nazareno, imóvel, soprava espaçadamente o fumo do cigarro. Era talvez um amigo de Damião - pensou Artur. Poderia perguntar-lhe, muito naturalmente, a morada de Damião, ou quando voltava do Algarve.
E ia falar-lhe, animado por dois cálices de genebra - quando o republicano pôs três vinténs sobre o mármore da mesa, ergueu-se, deu um jeito ao cabelo diante do espelho, e saiu, direito e seco. Que ferro!
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