Baixa

Ramalho Ortigão — As Farpas I
Saio de Lisboa de manhã cedo… Uma destas belas manhãs criadoras, em que as abóboras e os melões abeberados na raiz pela rega da véspera se dilatam regaladamente a um sol de rachar. Sente-se, no modo como de quando em quando redemoinham as folhas secas ao bafo morno da viração de leste, que vai cair um dia de calor real; e do trem dos limonadeiros postados à esquina das ruas da Baixa, com os seus m… ver mais

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E pouco a pouco aquela luz viva, saída do alto, parecia ao Ega penetrar nessa intrincada desgraça, aclará-la toda, mostrar-lhe bem a lenta evolução. Sim, tudo isso era provável no fundo! Essa criança, filha de uma senhora que a levara consigo, cresce, é amante dum brasileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. Num bairro vizinho vive outro filho dessa mulher, por ela deixado, que cresceu, é um homem. Pela sua figura, o seu luxo, ele destaca nesta cidade provinciana e pelintra. Ela por seu lado, loura, alta, esplêndida, vestida pela Laferrière, flor duma civilização superior, faz relevo nesta multidão de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! Há nada mais natural? Se ela fosse feia e trouxesse aos ombros uma confecção barata da Loja da América, se ele fosse um mocinho encolhido de chapéu côco, nunca se notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o conhecerem-se era certo, o amarem-se era provável... E um dia o sr. Guimarães passa, a verdade terrível estala!
E na sua agitação, sentindo que não poderia tolerar a vista de Machado, não foi ao escritório: vagueou pela Baixa, tendo sempre diante dos olhos aquela visão da mão da criada, do papel branco, e do aspecto embaraçado de Ludovina.
Meti no bolso, o embrulho das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos à casa de minha tia, marchei a pé, com o caixote às costas, na noite cheia de silêncio e de estrelas, para a Baixa, para o Hotel da Pomba de Ouro.
Carlos, só, dentro do "coupé", voltando à Baixa, sentia uma alegria triunfante com aquela partida da condessa, e a inesperada jornada do Dâmaso. Era como uma dispersão providencial de todos os importunos: e assim se fazia em torno da Rua de S. Francisco uma solidão - com todos os seus encantos, e todas as suas cumplicidades. No Cais do Sodré deixou a carruagem, subiu a pé pelo Ferregial, veio passar diante das janelas na Rua de S. Francisco. Só pôde ver uma vaga tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. Podia agora imaginar com precisão o serão calmo que ela estava passando na larga sala de repes vermelho. Sabia o nome dos livros que ela lia, e as partituras que tinha sobre o piano; e as flores que espalhavam ali o seu aroma vira-as ele arranjar nessa manhã. Poria ela um instante o seu pensamento nele? Decerto; a doença em casa forçava-a a lembrar as horas do remédio, as explicações que ele dera, e o som da sua voz; e falando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes percorreu a Rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite estrelada, devagar, ruminando a doçura daquele grande amor.
- Quer alguma coisa da Baixa, de Babilónia? - perguntava Carlos, abotoando à pressa as suas luvas de governar. - Bom dia de trabalho. - Pouco provável... E no "dog-cart", com aquela linda égua, a «Tunante», ou no faetonte com que maravilhava Lisboa, Carlos lá partia em grande estilo para a Baixa, para «o trabalho.»
Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heróica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o músculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?... - Isso são os lisboetas - disse Craft. - Lisboa é Portugal - gritou o outro. - Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...
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