Figueira da Foz

Ramalho Ortigão — As Farpas I
Do forte de Santa Catarina foram desalojados os soldados de Junot por uma força de estudantes de Coimbra em 1808, e foi na praia defendida por esta fortaleza que desembarcaram os treze mil da expedição inglesa comandada por Lorde Wellington. A melhor casa da cidade é o antigo palácio dos condes de Tavarede, na rua do Paço. Dois dos grandes salões deste prédio são forrados à altura de um terço da p… ver mais

Additional Excerpts

Não tem outro remédio senão vir à Figueira quem quiser ver a mais linda praia de banhos de Portugal. A grande baía compreendida entre o cabo Mondego e a embocadura do rio desenha uma curva encantadora, lembrando os mais risonhos e os mais doces golfos do Mediterrâneo. Em toda a linha de areia que borda a enseada, na extensão de meia légua, não há um rochedo. O terreno é cortado emfalaise sobre a praia. O longo abarracamento dos banhistas, em tendas pontiagudas, de lona branca, arma-se junto do forte de Santa Catarina, construído na foz do rio. Quem se senta na praia, voltado para o mar, tem à esquerda a fortaleza ameada e denegrida, no estilo de todas as que construiu o conde de Lieppe ao longo do litoral português; para a direita, a curva da costa, com o farol na ponta, e a pequena povoação de Buarcos, à beira de água, alvejando ao sol. Pelo ângulo da fortaleza avista-se a água espelhada do Mondego e a verdura ridente das colinas da margem de além, matizadas pela casaria branca das aldeias longínquas. À hora do banho, das oito às dez, a praia enche-se de banhistas. Como não há rochas nem dunas, toda a gente que desce da falaise para a beira da água fica em plena evidência. Esta circunstância dá um ar especial a esse juntamento de cada dia. O banho torna-se um rendez-vous geral de toda a população balnear e traz consigo umas certas exigências de aparato e "toilette". Nenhuma senhora ousaria aqui, como na Foz, em Espinho, em Leça ou na Póvoa, vir ao banho enrolada num xaile, com uma manta pela cabeça. A paisagem é tão larga, tão descoberta e tão luminosa que impõe uma espécie de culto e de cerimonial. Os lindos sítios levam as mulheres a vestir-se bem. Nos lugares alcantilados e ásperos a fisionomia humana arrepia-se e confrange-se. Nas planícies louras e azuis, nos golfos tépidos sobre o espelho límpido das águas, ao abrigo de colinas virentes, a beleza expande-se e floresce. Nunca vi provincianazinhas que me parecessem tão lindas e tão bem vestidas como nestas vividas, frescas e claras manhãs de sol, na praia da Figueira. Um arzinho arrapazado e sadio parece embandeirar os olhos destas raparigas e fazer-lhes cantar barcarolas pela frescura da pele.
O Bairro de Santa Catarina, ou Bairro Novo, principalmente habitado pelos banhistas, foi construído há poucos anos e consta de casas todas novas, pintadas de branco, de um teatro, um clube e um hotel para oitenta hóspedes. Infelizmente, em vez de ser edificado com método, sobre a praia, com o hotel de banhos e o Casino ao centro, os restaurantes com terraços ao ar livre, o novo bairro não fez frente ao oceano e dispersa-se desengraçadamente na colina para o lado da terra. O bairro antigo tem aumentado consideravelmente nos últimos tempos. As obras do Mondego acrescentaram, por meio de aterros à beira do rio, a superfície do terreno, rapidamente coberto de novos prédios, espaçosos e elegantes. Uma bela avenida arborizada, à beira do rio, conduz da estação do caminho-de-ferro à primeira grande praça da antiga vila, na qual há poucos anos ainda se penetrava por uma rua em funil, ladeada de velhas casas sombrias e calçada de enormes pedregulhos, por cima dos quais trambolhava pesada e estrepitosamente, ao som dos guizos, dos estalos de chicote e da corneta do condutor, a velha diligência de Coimbra. Monumentos não há. A Figueira, que ainda no século XVIII era apenas uma pequena aldeia com trezentos habitantes, não tem história antiga. A vila de Buarcos, que se diz ter sido fundada por uma colónia de pescadores galegos no século XV, invadida pelos holandeses e pelos ingleses no tempo da dominação filipina, também não tem tradição, porque os invasores ingleses saquearam e incendiaram tudo quanto podia explicar o passado. Resta apenas em Fr. Bernardo de Brito a menção das duas célebres fontes de Buarcos, uma das quais absorve e a outra rejeita tudo quanto se lhes deita dentro. O venerável cronista afirma ter ele mesmo visto, pelo seus próprios olhos, essas duas maravilhas.
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