Tudo na sua vida era assim incompleto, esboçado, fragmentário: não encontrava nada de sólido em que se fixar, a que se dedicar: amor, relações, glória, tudo lhe escapava de entre as mãos, como a água que uma criança quer apanhar. E sentia uma solidão, uma frialdade que a noite enevoada aumentava. Caíra um nevoeiro, que os altos prédios entalavam, condensavam, onde a luz do gás se amolecia, e os vu…
ver más
Tudo na sua vida era assim incompleto, esboçado, fragmentário: não encontrava nada de sólido em que se fixar, a que se dedicar: amor, relações, glória, tudo lhe escapava de entre as mãos, como a água que uma criança quer apanhar. E sentia uma solidão, uma frialdade que a noite enevoada aumentava. Caíra um nevoeiro, que os altos prédios entalavam, condensavam, onde a luz do gás se amolecia, e os vultos tinham um tom neutro e encolhido: as fachadas escuras, pareciam mais tristes, vagamente fundidas no baço relegamento da bruma.
E Artur, caminhando todo triste, sentia a névoa prender-se-lhe ao bigode, às pestanas, amolecer-lhe a goma do colarinho, toda aquela humidade ia-se depositando na alma. Cheio de tédio, sentindo-se mais só, nas ruas vazias donde o nevoeiro afastara a gente, teve um desejo de se embebedar, aquecer o corpo e o espírito com genebra, rolar-se num deboche... Voltou ao Rossio, entrou num pequeno café, onde a cor suja das paredes, o soalho negro, o estuque enxovalhado, comiam a pouca luz de bicos tristes de gás.
Instalou-se a um canto, com a garrafinha de genebra, triste, pensando no botequim da Corcovada, que agora lhe parecia mais confortável, mais amável que tudo o que encontrara em Lisboa, com a simpatia verbosa do Rabecaz, o lume a estalar, do outro lado do tabique, na lareira da cozinha, e as vozes conhecidas caturrando no bilhar.
ver menos