Terreiro do Paço

Camilo Castelo Branco — Coisas Espantosas
Durante o trajecto do mar até Saint-Nazaire a senhora D. Rosa quando não ia enjoada dava louvores a Deus pela magnificencia das suas obras e pasmava de ver o mar incomparavelmente maior do que se lhe afigurava visto do «caes das columnas» onde ella fora algumas vezes admira-lo.

Additional Excerpts

[…] - Por isso eu lhe vi ali, na mesa - exclamou Carlos - um livro, «Nínive e Babilónia»... Que diabo, você gosta disso? Eu tenho horror a raças e a civilizações defuntas... Não me interessa senão a Vida. - É que você é um sensual - disse Craft. E a propósito de sensualidade e de Babilónia, quer vir você almoçar ao Bragança? Eu tenho de lá encontrar um inglês, o meu homem das minas... Mas havemos de ir pela Rua do Ouro, que quero trepar um instante à caverna do meu procurador... E a caminho, que é meio dia! […] A caverna do procurador era defronte do Montepio. Carlos esperava, havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta - quando de repente avistou Melanie, a sair o portão do Montepio, com uma matrona gorda, de chapéu roxo. Surpreendido, atravessou a rua. Ela estacou como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; balbuciou logo que "madame" lhe dera licença para vir a Lisboa, e ela andava acompanhando aquela amiga... Uma velha caleche, de parelha branca, estava encalhada ali, contra o passeio. Melanie saltou para dentro, à pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do Paço. Carlos via-a desaparecer, pasmado. E Craft, que voltara, olhando também, reconheceu no lamentável calhambeque a caleche do Torto, dos Olivais, onde ele às vezes costumava vir «janotar a Lisboa».
Nessa manhã, Godofredo da Conceição Alves, encalmado, soprando por ter vindo do Terreiro do Paço quase a correr, abria o batente de baetão verde do seu escritório, na Rua dos Douradores, quando o relógio de parede, por cima da carteira do guarda-livros, batia duas horas, naquele tom cavo a que os tectos baixos davam uma sonoridade dolente e triste.
A figura do Conselheiro afastava-se, direita, digna, para os lados das Secretarias. Chamou um trem. - A quanto puder! - exclamou. A carruagem entrou quase a galope na ruazinha do «Paraíso». Figuras pasmadas apareceram à janela. Subiu, palpitante. A porta estava fechada - e logo a cancela do lado abriu-se, e a voz doce da patroa segredou: - Já saiu. Há-de haver meia-hora. Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo do "coupé", rompeu num choro histérico. Correu os estores para se esconder; arrancou o véu, rasgou uma luva, sentindo em si violências inesperadas. Então veio-lhe um desejo frenético de ver Basílio! Bateu nos vidros desesperadamente, gritou: - Ao Hotel Central! […] A parelha estacou, resvalando, à porta do hotel. «O sr. Basílio de Brito não estava, o senhor visconde Reinaldo, sim.» - Bem, para casa, para onde eu disse!
O pai de Gonçalo, ora regenerador, ora histórico, vivia em Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco Hipotecário e pelo lajedo da Arcada, até que um ministro do Reino, cuja concubina, corista de S. Carlos, ele fascinara, o nomeou (para o afastar da capital) governador civil de Oliveira.
Felizmente um trem avançava, rolando devagar, do lado do Terreiro do Paço. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mão ao democrata, desejou-lhe uma «boa viagem», atirou ao cocheiro a "adresse" do Ramalhete. Mas o sr. Guimarães ainda se apoderou da portinhola para aconselhar ao Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o apresentar a toda aquela gente... E o sr. Ega veria! Não era cá a grande pose portuguesa, destes imbecis, destes pelintras a darem-se ares, torcendo os bigodes. Lá, na primeira nação do mundo, tudo era alegria e fraternidade e espírito a rodos... - E a minha "adresse", na redacção do «Rappel»! Bem conhecida no mundo! Enquanto ao embrulhozinho fico descansado... - Pode Vossa Excelência ficar descansado! - Criado de Vossa Excelência... Os meus comprimentos à Sr.ª D. Maria! Na carruagem, através do Aterro, a ansiosa interrogação do Ega a si mesmo foi: «Que hei de fazer?»
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