Chiado
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Ega no entanto, através do tumulto, farejava buscando Carlos, que desaparecera depois dos abraços ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que Carlos passara para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o Sr. D. Carlos tomara uma tipóia e ia já virando o Chiado…
Additional Excerpts
Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se gesticulava, destacavam às portas vivamente alumiadas da Casa Havanesa; os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rápido reluzir de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos criados. D. Felicidade, com a sua face jubilosa à portinhola, gozava a claridade do gás nas vitrines, o ar de Inverno; e foi com uma satisfação que viu o guarda-portão do Gibraltar, de calções vermelhos, vir com o boné na mão, à portinhola.
O que o torturava acima de tudo era não a ter ainda conseguido vê-la. Debalde passava e tornava a passar pela casa de Neto; debalde ia aos domingos à missa, à igreja dela; debalde rondava a casa da modista dela, uma D. Justina, no Largo do Carmo, na esperança de a ver de lá sair ou para lá entrar. Até que um dia, ao deixar uma tabacaria, acendendo o charuto, de repente, viu-a de costas...
Ficou tão perturbado, tão trémulo, que em lugar de correr a segui-la, a vê-la, como o seu desejo reclamava furiosamente, recolheu-se vivamente para o fundo da loja, e ali ficou, hesitante, sentindo bater-lhe o coração, pálido e entorpecido. E quando pôde reagir e saiu para a ver uma vez ainda, debalde subiu e desceu o Chiado, não a encontrando: tinha-a perdido. E foi para casa com uma saudade imensa, tendo diante dos olhos aquela figura alta, vestida de preto, com uma flor amarela no chapéu.
Porém, o encanto quebrara-se, e uma semana depois, quando ia descendo a Calçada do Correio, avistou-a que subia com a irmã. Foi a mesma perturbação, o mesmo embaraço, a mesma ideia de se esconder num portal… Mas por fim, com o coração aos saltos, decidiu-se a afrontar o encontro: firmou o passo, deu um leve puxão aos punhos, aprumou-se. E de lado, tremendo todo, viu-a baixar os olhos e corar, perturbada.
Nós morávamos no Campo de Santana. Ao descer o Chiado, eu parava numa loja de estampas, diante do lânguido quadro de uma mulher loura, com os peitos nus, recostada numa pele de tigre e sustentando na ponta dos dedos, mais finos do que os do Crispim, um pesado fio de pérolas. A claridade daquela nudez fazia-me pensar na inglesa do senhor barão: e esse aroma, que tantas vezes me perturbara no corredor da estalagem, respirava-o outra vez, finalmente espalhado, na rua cheia de sol, pelas sedas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
- Eu, se esse Craveirote não fosse um raquítico, talvez me entretivesse a rolá-lo aos pontapés por esse Chiado abaixo, a ele e à versalhada, a essa lambisgonhice excrementícia com que seringou Satanás! E depois de o besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o crânio!
- Não se esborracham assim crânios - disse de lá o Ega num tom frio de troça.
Alencar voltou para ele uma face medonha. A cólera e o conhaque incendiavam-lhe o olhar; todo ele tremia:
[…]
Carlos, vendo-o tão excitado, tomou-lhe o braço, quis calmá-lo:
- Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o último desabafo:
- Com efeito, não vale a pena ninguém zangar-se por causa desse Craveirote da Ideia nova, esse caloteiro, que se não lembra que a porca da irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canavezes!
- Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de punhos fechados.
Cohen e Dâmaso, assustados, agarraram-no. Carlos puxara logo para o vão da janela o Alencar que se debatia, com os olhos chamejantes, a gravata solta. Tinha caído uma cadeira; a correcta sala, com os seus divãs de marroquim, os seus ramos de camélias, tomava um ar de taverna, numa bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Dâmaso, muito pálido, quase sem voz, ia de um a outro:
- Oh! meninos, oh! meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel Central!...
Ambos o elogiaram profundamente - Carlos arrependido de não ter completado a humilhação do Dâmaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando que decerto, numa dessas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o Cohen. Como eles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, já desanuviado, foi acompanhá-los
pelo Aterro.
O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado deles, de chapéu branco, de colete branco, o Dâmaso deitava olhares pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus domínios. Já aquele arzinho gordo de tranquilo triunfo irritou Carlos. Mas quando o Dâmaso parou defronte, no outro passeio, todo de costas para ele, ostentando rir alto com o Gouvarinho, não se conteve, atravessou a rua.
Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mão do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Dâmaso friamente:
- Ouve lá. Se continuas a falar de mim e de pessoas das minhas relações, do modo como tens falado, e que não me convém, arranco-te as orelhas.
O conde acudiu, metendo-se entre eles:
- Maia, por quem é! Aqui no Chiado...
- Não é nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sério e muito sereno. É apenas um aviso a este imbecil.
- Eu não quero questões, eu não quero questões!... balbuciou o Dâmaso, lívido, enfiando para dentro duma tabacaria.
E Carlos voltou, com sossego, para junto dos seus amigos, depois de ter saudado o Cohen e sacudir a mão ao Gouvarinho.
E tudo isto lhe bailava alegremente em volta do coração, enquanto subia, na calmaria ardente, sob o seu guarda-sol, a Rua Nova do Carmo. Ao alto da rua, no restaurante do Mata, parou a encomendar uma empada de peixe para as seis horas. Comprou ainda um fiambre, um queijo da serra, e olhava em redor para ver o que poderia levar mais, com a alegria e a sofreguidão dum pássaro que provê o seu ninho. Subiu o Chiado. Um momento parou, a olhar com respeito um grande homem, um grande poeta, um grande historiador, que nesse momento, de velho casaco de lustrina e chapéu de palha, conversava à porta do Bertrand, com o seu enorme lenço de ramagens preparado para se assoar. Godofredo admirava-lhe os romances e o estilo. Depois, comprou charutos para o sogro, para depois do jantar. Desceu, enfim, a Calçada do Correio, que faiscava sob o sol, poeirenta e seca. Apesar do calor, caminhava depressa, palpando de vez em quando a caixa da pulseira, que metera no bolso da sobrecasaca.
Chegara à Rua de S. Bento, a meia dúzia de passos da sua casa, quando, dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando ao balcão. Compreendeu logo que a Lulu não se esquecera do dia, da data feliz: a Margarida viera comprar doces, sobremesa.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com ele à Rua de S. Francisco (onde Maria se instalara nessa manhã), levarem a nova da grande obra. Mas encontraram à porta uma carroça descarregando malas; e a senhora, contou o Domingos, que ajudava os carroceiros, estava ainda jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confusão na casa, Ega não quis subir.
- Até logo - disse ele. Vou talvez procurar o Simão Craveiro e falar-lhe da revista.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegramas na Casa Havanesa. Depois, à esquina da Rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido num paletó, ofereceu-lhe uma «senhazinha». Outros, em volta, gritavam na sombra do Hotel Aliança:
- Bilhete para o Ginásio! Mais barato... Bilhete para o Ginásio! Quem vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librés. Os bicos de gás do Ginásio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flor no paletó.
- Que é isto?
- Festa de beneficência, não sei - disse o Craft. - Uma coisa promovida por senhoras, a baronesa de Alvim mandou-me um bilhete... Venha você daí ajudar-me a levar esta caridade ao Calvário.
E na esperança de "flirtar" com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No peristilo do Ginásio encontraram Taveira passeando e fumando solitàriamente, à espera que findasse a primeira comédia, «O Fruto Proibido». Então Craft propôs «botequim e genebra».
- E que há do Ministério? - perguntou ele, apenas abancaram a um canto.
O Taveira não sabia. Todos esses dois longos dias se intrigara desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Públicas: o Videira também. E falava-se duma cena terrível por causa de sindicatos, em casa do presidente do Conselho, o Sá Nunes, que terminara por dar um murro na mesa, gritar: «Irra! que isto não é o pinhal de Azambuja!»
- Canalha! - rosnou Ega com ódio.
Depois falaram do Ramalhete, da volta de Afonso, da reaparição do Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez nesse Inverno uma casa com fogões, onde se passasse uma hora civilizada e inteligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
- Diz que vamos ter um centrozinho muito mais interessante ainda, na Rua de S. Francisco! Foi o marquês que me disse. Madame Mac-Gren vai receber.
Craft não sabia mesmo que ela já tivesse recolhido da Toca.
- Voltou hoje - disse o Ega. - Você ainda não a conhece?... Encantadora.
- Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma beleza. E um ar tão simpático!
- Encantadora! - repetiu Ega.
- Vamos lá jantar - disse ele. - Mas aonde, a esta hora?
E ele mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, além do "coupé" de Carlos, esperava a tipóia do Craft. As duas carruagens partiram. A Vila Balzac ficava apagada, muda, de ora em diante inútil.
No André tiveram de esperar muito tempo, num gabinete triste, com um papel de estrelinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas de repes azul, e dois bicos de gás que silvavam. Ega, enterrado no sofá de molas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exausto. Carlos ia contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a espanholas: uma saindo da igreja; outra saltando uma pocinha de água; outra, de olhos baixos, escutando os conselhos de um canónico. Craft, já à mesa, com a cabeça entre os punhos, percorria um "Diário da Manhã", que o criado oferecera para os senhores se entreterem.
Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moço, contou o Ega, tinha agora por cima mais dez anos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre apurado, já um bocado grisalho, metido continuamente com alguma
espanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as tardes na Havanesa, com um ar doce e contente - «Isto é um país perdido!» Enfim, um bom tipozinho de lisboeta fino.
Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a «Corneta do Diabo»: e na impressão, no papel, na abundância dos itálicos, no tipo gasto, todo ele revelava imundície e malandrice. Logo na primeira página duas cruzes a lápis marcavam um artigo que Carlos, num relance, viu salpicado com o seu
nome. E leu isto: «Ora viva, sô Maia! Então já se não vai ao consultório, nem se vêem os doentes do bairro, "sô janota"? - Esta piada era botada no Chiado, à porta da Havanesa, ao Maia, ao Maia dos cavalos ingleses, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota por aí de catita; e o pai Paulino que "tem
olho" e que passava nessa ocasião ouviu a seguinte "cornetada": - É que o sô Maia acha que "é mais quente" viver nas fraldas de uma "brasileira casada", que nem é brasileira nem é casada, e a quem o papalvo pôs casa, aí para o lado dos Olivais, para "estar ao fresco"! Sempre os há neste mundo!... Pensa o homem que botou conquista; e cá a rapaziada de gosto ri-se, porque o que a gaja lhe quer não são os lindos olhos, são as lindas "louras"... O simplório, que bate aí pilecas "bifes", que nem que fosse o "marquês", o verdadeiro marquês, imaginava que se estava abiscoitando com uma senhora do chique, e do "boulevard" de Paris, e casada, e titular!... E no fim (não, esta é para a gente deixar estoirar o «bandulho a rir!) no fim descobre-se que a tipa era uma "cocotte" safada, que trouxe para aí um brasileiro "já farto dela" para a passar cá aos belos lusitanos... E caiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o sô Maia só apanhou os restos de outro, porque a tipa, já antes de ele se
enfeitar, tinha "pandegado" à larga, aí para a Rua de S. Francisco com um rapaz da fina, que se safou também, porque cá como nós só "aprecia a bela espanhola". Mas não obsta a que o sô Maia seja traste! - Pois se assim é, dissemos nós, cautelinha, porque o Diabo cá tem a sua "Corneta" preparada
para cornetear por esse mundo as façanhas do "Maia das conquistas". Ora viva, sô Maia!»
Queria pois o amigo Dâmaso um conselho? Era assinar uma carta afirmando que tudo o que fizera publicar na "Corneta" sobre o Sr. Carlos da Maia e certa senhora fora invenção falsa e gratuita. Só isto o salvava. Doutro modo, Carlos um dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse desastre, Dâmasosinho, a não querer ser apontado em Lisboa como um incomparável cobarde, tinha de se bater à espada ou à pistola…
Carlos corou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a Gouvarinho senão relações superficiais. Ia lá às vezes tomar uma chávena de chá; e à hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar com o conde sobre as misérias públicas, à esquina do Loreto. Nada mais.
- Nós não temos os jogos de destreza das outras nações - exclamava ele [o marquês], bracejando pela sala e esquecido dos seus males. - Não temos o "cricket", nem o "foot-ball", nem o "running", como os ingleses; não temos a ginástica como ela se faz em França; não temos o serviço militar obrigatório que é o que torna o alemão sólido... Não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos só a tourada... Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois você não acha, Craft?
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o braço do Taveira, levou-o para o corredor.
- Dize-me uma coisa: onde viste tu o Dâmaso, com essa gente? Para que lado iam?
- Iam pelo Chiado abaixo; anteontem, às duas horas... Estou convencido que iam para Sintra. Levavam uma maleta no "landau", e atrás ia uma criada num "coupé" com uma mala maior... Aquilo cheirava a ida a Sintra. E a mulher é divina! Que "toilette", que ar, que chique! É uma Vénus, menino!... Como conheceria ele aquilo?...
- Em Bordéus, num paquete, não sei onde!
- Eu do que gostei foi dos ares que ele se ia dando por aquele Chiado! Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A debruçar-se, a falar muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista...
- Que besta! - exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.
- Chama-lhe besta, disse o Taveira. - Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher civilizada e decente, e é ele que a conhece, e é ele que vai com ela para Sintra! Chama-lhe besta!... Anda daí, vamos à partidinha de dominó.
[…] Carlos, através da relva húmida, foi ainda lentamente até ao renque baixo de arbustos que daquele lado fechava a Toca como uma sebe. Aí a colina descia, com quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminé de fábrica que fumegava: para além era o azul fino e frio do rio: depois os montes, de um azul mais carregado, com a casaria branca da povoação aninhada à beira da água, nítida e suave na transparência do ar macio. Parou um momento, olhando. E aquela aldeia de que nunca soubera o nome, tão quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de sossego e de obscuridade, num canto assim do mundo, à beira de água, onde ninguém o conhecesse nem houvesse «Cornetas do Diabo», e ele pudesse ter a paz de um simples e de um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem amava…
Maria gritou por ele da janela da sala de jantar, onde se debruçara a apanhar uma das últimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
- Que lindo tempo para viajar, Maria! - disse Carlos chegando, através da relva.
- Lisboa é também muito linda, agora, havendo sol...
- Pois sim, mas o Chiado, a coscuvilhice, os politiquetes, as gazetas, todos os horrores... A mim está-me positivamente a apetecer uma cubata na África!
Mas dias depois não se falava mais nesse escândalo. Outras coisas interessavam o Chiado e a Casa Havanesa. O Ministério fora formado, finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha - Neves no Tribunal de Contas. Já os jornais do governo caído começavam, segundo a prática constitucional, a achar o país irremediàvelmente perdido, e a aludir ao rei com azedume... E o derradeiro, esvaído eco da carta do Dâmaso foi, na véspera do sarau da Trindade, um parágrafo da própria «Tarde» onde ela fora publicada, nestas amáveis palavras:
«O nosso amigo e distinto "sportman" Dâmaso Salcede parte brevemente para uma viagem de recreio a Itália. Desejamos ao elegante "touriste" todas as prosperidades na sua bela excursão ao país do canto e das artes.»
Então Godofredo, aliviado, continuou a caminhar ao acaso. Instintivamente, os seus passos fizeram o caminho habitual de todas as manhãs, o caminho do seu escritório. Desceu o Chiado. Na Rua do Ouro parou um momento a olhar uma pistola, na vitrine do Lebreton, e a ideia da morte atravessou-o. Mas não queria pensar nisso, agora, nem no seu duelo. Logo, às sete horas, quando se recolhesse e encontrasse a casa vazia, então sim, pensaria no duelo, no ajuste de contas com o outro. E foi andando, ao acaso. Um momento pensou em ir ao Passeio Público, mas receou encontrar o Machado. Seguiu pelo Terreiro do Paço, pelo Aterro, quase até Alcântara.
- Se isso não fosse incómodo para Vossa Excelência - acudiu Ega - eu passava agora pelo seu hotel e levava-os logo comigo...
- Incómodo nenhum! Estamos em caminho, é negócio que fica feito!
Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabara. Um bater de carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto deles passaram duas senhoras, com um rapaz que bracejava, falando alto do Alencar. O sr. Guimarães tirara lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para raspar um fósforo:
- Então a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ela? Como foi isso?
Ega, que caminhava com a cabeça caída, estremeceu como se acordasse. E começou a tartamudear uma história confusa, de que ele mesmo corava na sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fora o procurador que descobrira. Ela rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os Maias davam-lhe uma mesada; e vivia nos Olivais, muito retirada, como filha dum Maia que morrera na Itália. Todos gostaram muito dela, Afonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...
E de repente indignou-se com estas invenções por onde arrastava já o nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
- Enfim, nem eu sei, um horror!
- Um drama! resumiu gravemente o sr. Guimarães.
E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento enquanto ele corria acima buscar os papéis da Monforte.
Só, no largo, Ega ergueu as mãos ao céu num desabafo mudo daquela angústia em que caminhava, como um sonâmbulo, desde o Loreto.
Calou-se: aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com aquela linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, curvou-se para ela misteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
- Está um dia apreciável!
E ofereceu-lhe bolos à porta do Baltreschi. Luísa recusou. […]
Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois de hesitar, pediu gravatas de "foulard" a um caixeiro louro e jovial. […]
O Conselheiro, muito solícito, prontificou-se a acompanhá-la a uma boa farmácia tomar água de flor de laranja… Desciam então a Rua Nova do Carmo, e o Conselheiro ia afirmando que o caixeiro fora muito polido: não se admirava, porque no comércio havia filhos de boas famílias: citou exemplos.
Mas vendo-a calada:
- Ainda sofre?
- Não, estou bem.
- Temos dado um delicioso passeio!
Foram ao comprido do Rossio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira aproximaram-se para a Rua do Ouro. Luísa olhava em redor, aflita, procurava uma ideia, uma ocasião, um acontecimento - e o Conselheiro, grave a seu lado, dissertava. A vista do Teatro de D. Maria levara-o para as questões da arte dramática: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez demasiado forte. De resto só gostava de comédias. Não que se não entusiasmasse com as belezas de um «Frei Luís de Sousa», mas a sua saúde não lhe permitia as agitações fortes. Assim por exemplo…
Mas Luísa tivera uma ideia, e imediatamente:
- Ah! Esquecia-me! Tenho de ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luísa, estendendo-lhe a mão, com a voz rápida:
- Adeus, apareça, hem? - E precipitou-se para o portal do Vitry.
- Aí está outro inconveniente desta casa - dizia no entanto Maria Eduarda. - Aqui ao lado desse Grémio, a dois passos do Chiado, é demasiadamente acessível aos importunos. Tenho agora de repelir quase todos os dias este assalto à minha porta! É intolerável.
E com uma súbita ideia, atirando o bordado para o açafate, cruzando as mãos sobre os joelhos:
- Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... Não me seria possível arranjar por aí uma casinhola, um "cottage", onde eu fosse passar os meses de verão?... Era tão bom para a pequena! Mas não conheço ninguém, não sei a quem me hei-de dirigir...
Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivais - como já noutra ocasião em que ela mostrara desejos de ir para o campo. Justamente, nesses últimos tempos, Craft voltara a falar, e mais decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas colecções. Que deliciosa vivenda
para ela, artística e campestre, condizendo tão bem com os seus gostos! Uma tentação atravessou-o, irresistível.
- Eu sei com efeito duma casa... E tão bem situada, que lhe convinha tanto!…
Numa tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, à porta de Madame Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapéu branco, e uma senhora loura, embrulhada num xale de Caxemira.
O velho, baixote e reforçado, de barba muito grisalha talhada por baixo do queixo, uma face tisnada de antigo embarcadiço e o ar goche, desceu todo encostado ao trintanário como se um reumatismo o tolhesse, entrou arrastando a perna o portal da modista; e ela voltando devagar a cabeça olhou um momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapéu preto, os cabelos loiros, de um oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e clássica: os olhos maravilhosos iluminavam-na toda; a friagem fazia-lhe mais pálida a carnação de mármore: e com o seu perfil grave de estátua, o modelado nobre dos ombros e dos braços que o chale cingia — pareceu a Pedro nesse instante alguma coisa de imortal e superior à Terra.
Não a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de negro, que fumava encostado à outra ombreira, numa pose de tédio — vendo o violento interesse de Pedro, o olhar aceso e perturbado com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veio tomar-lhe o braço, murmurou-lhe junto à face na sua voz grossa e lenta:
— Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma garrafa de champanhe?
Veio o champanhe. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anéis da cabeleira e pelas pontas do bigode, começou, todo recostado e dando um puxão aos punhos:
— Por uma doirada tarde de Outono…
— André — gritou Pedro ao criado, martelando o mármore da mesa — retira o champanhe!
O Alencar bradou, imitando o actor Epifânio:
— O quê! Sem saciar a avidez do meu lábio?...
Pois bem, o champanhe ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o poeta das «Vozes de Aurora», explicaria aquela gente da caleche azul numa linguagem cristã e prática!...
— Aí vai, meu Pedro, aí vai!
Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mamã, aquele velho, o papá Monforte, uma manhã rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade de Lisboa naquela mesma caleche com essa bela filha ao seu lado. Ninguém os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma impressão — uma impressão de causar aneurismas, dizia o Alencar!
Daí a pouco, a trote largo no faetonte, Carlos descia o Chiado, dava a volta para a Rua de S. Francisco. Ia numa perturbação deliciosa e singular, com aquela certeza de que ela estava só na casa do Cruges: o último olhar que ela lhe dera parecia ir adiante dele, chamando-o: e um despertar tumultuoso de esperanças sem nome atirava-lhe a alma para o azul.
Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Dâmaso aparecera no Ramalhete, e por ele ouviram os rumores de Lisboa. Já se sabia no Grémio, no Chiado, por toda a parte, que ele fora expulso da casa dos Cohens.
Mas, passado ano e meio, num lindo dia de Março, Ega reapareceu no Chiado. E foi uma sensação!
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