Arroios

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Toda a antiga maneira de Maria pareceu com efeito ir mudando. Suspendera as "soirées". Começou a passar as noites muito recolhidas, com alguns íntimos, no seu "boudoir" azul. Já não fumava; abandonara o bilhar; e vestida de preto, com uma flor nos cabelos, fazia "crochet" ao pé do candeeiro. Estudava-se música clássica quando vinha o velho Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara també… ver más

Additional Excerpts

Nesse Outubro, quando a pequena completou o seu primeiro ano, houve um grande baile na casa de Arroios, que eles agora ocupavam toda, e que fora ricamente remobilada. E as senhoras que outrora tinham horror à «negreira», a D. Maria da Gama que escondia a face por trás do leque, lá vieram todas, amáveis e decotadas, com o beijinho pronto, chamando-lhe «querida», admirando as grinaldas de camélias que emolduravam os espelhos de quatrocentos mil réis, e gozando muito os gelados. Começara então uma existência festiva e luxuosa, que, segundo dizia o Alencar, o íntimo da casa, o cortesão de Madame, «tinha um saborzinho de orgia "distinguée" como os poemas de Byron». Eram realmente as "soirées" mais alegres de Lisboa: ceava-se à uma hora com champanhe; talhava-se até tarde um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se mostrava soberanamente bela sob as roupagens clássicas de Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judite. Nas noites mais íntimas, ela costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater à carambola francesa D. João da Cunha, o grande taco da época. E no meio desta festança, atravessada pelo sopro romântico da Regeneração, lá se via sempre, taciturno e encolhido, o papá Monforte, de alta gravata branca, com as mãos atrás das costas rondando pelos cantos, refugiado pelos vãos das janelas, mostrando-se só para salvar alguma bobeche que ia estalar — e não desprendendo nunca da filha o olho embevecido e senil. Nunca Maria fora tão formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz àquelas altas salas de Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tranças, o ebúrneo e o lácteo do colo nu, e o rumor das grandes sedas. Com razão, querendo ter, à maneira das damas da Renascença, uma flor que a simbolizasse, escolhera a túlipa real, opulenta e ardente.
O baptizado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi muito benigna porém; e daí a duas semanas Pedro podia já sair para uma caçada na sua quinta da Tojeira, adiante de Almada. Devia demorar-se dois dias. […] O Alencar e D. João Coutinho iam também à caçada — e a partida foi de madrugada. […] Um desastre estúpido!... Ao saltar um barranco, a espingarda disparara-se-lhe, e a carga, zás, vai cravar-se no napolitano! Não era possível fazer curativos na Tojeira, e voltaram logo a Lisboa. Ele naturalmente não consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara chamar o médico, duas enfermeiras para o velar, e ele mesmo lá ia passar a noite… […] Maria, desde então, não pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era Pedro que vinha, a cada instante, falar-lhe dele, entusiasmado por aquela existência patética de príncipe conspirador, partilhando já o seu ódio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que encontrava nele, o mesmo amor da caça, dos cavalos, das armas.
D. Maria fora uma das suas lindas contemporâneas. Tinham dançado muita ardente mazurca nos salões de Arroios. Ela tratava-o por tu. Ele dizia sempre «boa amiga», e «querida Maria». - Deixa ver os nomes desses cavalos, Alencar... Senta-te aí, anda, faz companhia. Ele puxou uma cadeira, rindo do interesse que ela tomava pelas corridas. E ele que a conhecera sempre uma entusiasta de toiros!... Pois os nomes dos cavalos eram «Júpiter» e «Escocês»... - Nenhum desses nomes me agrada, não aposto. E então que te parece tudo isto, Alencar?... A nossa Lisboa vai-se saindo da concha... Alencar, pousando o chapéu sobre uma cadeira, e passando a mão pela sua vasta fronte de bardo, confessou que aquilo tinha realmente um certo ar de elegância, um perfume de corte... Depois, lá em baixo, aquele maravilhoso Tejo…
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