Pela disposição das casas, Viana consta de um grupo de habitações emassadas num pequeno âmbito, e do apenso excêntrico de uma longa rua. Vista do alto de uma das colinas adjacentes, a casaria de Viana oferece o aspecto de um grande papagaio de papel branco caído no chão, entre os campos, à beira do rio.
Vista por dentro, a cidade é encantadora de modéstia, de simplicidade, de silêncio e de asseio.
A grande abundância de granito explorado nos arredores permíte calçar todas as ruas com grandes pedras indestrutíveis, dando ao pavimento uma superfície lisa como a de um muro de cantaria.
Não há tramwaysi>, não há botequins, não há cartazes nas esquinas, não há realejos nem músicos ambulantes, não há lixo, não há moscas e não se vê polícia.
A praça principal, destinada por D. Manuel, que a edificou, para as festas públicas, tem um lindo ar de Renascença, com o seu grande chafariz e a sua fachada histórica do palácio da Misericórdia.
Por várias partes, nas velhas ruas estreitas e contorcidas da antiga vila, belos arcos de portas e janelas, ou pequenos motivos truncados de decoração arquitectónica, nesse interessante estilo
meio gótico meio muçulmano ou mourisco, que caracteriza a nossa arquitectura chamada manuelina.
Finalmente, muitos conventos, entre os quais o de Santa Cruz, onde viveu e morreu o arcebispo Frei Bartolomeu dos Mártires, e o de S. Domingos, que ele mesmo edificou e em que está sepultado.
Secou e emudeceu nestas casas o antigo correr de água que tão docemente embalava o recolhimento e o estudo monástico, cantando nas fontes do dormitório, entre as murtas da cerca, na arcaria do claustro, nas bicas do refeitório e da sacristia. E ao longo dos corredores abobadados e sonoros perdeu-se o eco das sandálias da comunidade à hora canónica das rezas.
Há, porém, não sei que vago perfume de arte nestas solidões austeras, em que parece palpitar ainda o génio dos historiadores e dos cronistas, o que quer que seja da melancolia devota da prosa de Frei Luís de Sousa, cujo misticismo clássico converte a humildade fradesca numa espécie de privilégio aristocrático de grandes espíritos enfadados do Mundo, respondendo provocadoramente pelo culto literário da mais fina arte beata aos grosseiros pedantismes da ciência e aos ruidosos triunfos sociais da vasta imbecilidade humana.
O jardim público junto do cais, à beira da água, é certamente o mais bem situado do País. Faltam-lhe apenas algumas grandes árvores para ser inteiramente delicioso como todo o passeio daí até o enorme campo da Senhora da Agonia, sobre a foz do Lima.
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