Agosto 29. - Partida para o Sabugal às seis e meia da manhã com nevoeiro cerrado e depois alguma chuva: paramos a almoçar do fardel na aldeia da Orgueira a uma légua. Seguindo avante o terreno torna-se menos anfractuoso, os cerros graníticos vão desaparecendo, os montes arredondando-se mais suavemente, mas a cultura não se torna mais frequente: a meia légua o Sabugal: descida para o Côa: passamos …
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Agosto 29. - Partida para o Sabugal às seis e meia da manhã com nevoeiro cerrado e depois alguma chuva: paramos a almoçar do fardel na aldeia da Orgueira a uma légua. Seguindo avante o terreno torna-se menos anfractuoso, os cerros graníticos vão desaparecendo, os montes arredondando-se mais suavemente, mas a cultura não se torna mais frequente: a meia légua o Sabugal: descida para o Côa: passamos a ponte de três arcos e entramos na vila. […] Castelo: paralelogramo com quatro torres quadradas: adarves e ameias destruídas quase inteiramente; mas os panos dos muros e as escadarias interiores bem conservadas: precede um pequeno recinto com vestígios de fortificações, no qual, encostada ao muro, e ao lado da entrada está a torre quinária, pentágono regular de excessiva altura e perfeitamente conservada: a entrada dela é a meia altura, por cima do adarve: dentro uma casa de abóbada artesoada: uma escada de pedra que vai seguindo a parede, conduz a outra abóbada superior: esta mais elevada vê-se que era dividida em dois pavimentos, restando ainda uma das traves sobre que assentava o sobrado do pavimento superior que dava para cinco balcões de pedra, com troneiras na soleira para deitar pedras e matérias inflamáveis: vê-se na abóbada uma abertura que dava comunicação para o eirado: no lado oposto do castelo está a porta da traição, com uma barbacã e dois cubelos redondos nas extremidades desta. O castelo parece da época joanina ou talvez mais moderno, mas vê-se que assenta sobre obras mais antigas a que pertencem os restos da cerca da povoação. Os campos de roda do Sabugal parecem férteis; os montes pouco elevados e livres de fraguedos nos cimos. Saindo da vila tornamos a atravessar o Côa em direcção a Penamacor. Vasta chapada inculta: caminhamos por entre matas cerradas de carvalhos de pequena altura: para o oriente montes e vales incultos para o horizonte. Entra-se na serra das Aguçadoiras: terreno mais acidentado e inóspito: os carvalhos cedem o lugar aos matos rasteiros: tudo com raras excepções parece inculto para ambos os lados: verdadeira imagem do deserto. Descida áspera para um vale extenso, onde aqui e acolá no meio dos matos se vê algum raro olivedo ou campo cultivado: meia légua pelo vale abaixo a pequena aldeia da Meimoa. Paramos aí e comemos queijo e peras numa taberna: famosas
peras correias: depois de algum descanso cortamos o vale e começamos a subir a serra de Santo André inteiramente inculta. Chegamos ao alto e descobrimos dali as extensas veigas e outeiros da Beira Baixa: à esquerda numas colinas que parece despegarem-se da serra de Santo André está assentada Penamacor: vila populosa, cujo antigo recinto no alto do monte está abandonado restando apenas da antiga povoação algumas ruínas e uma torre: a vila moderna estende-se numa quebrada inferior e pendura-se para um e outro pendor do monte.
Passamos ao lado de Penamacor e vimos dormir à aldeia de Águas, residência paterna de Luís da Cunha Barreto nosso hóspede na Guarda.
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