Rossio
Eça de Queirós — A Ilustre Casa de Ramires
Parou — ondeou o braço magro, como a correia dum látego, num gesto que açoutava o Rossio, a Cidade, toda a Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o segredo desta borracheira sinistra? É que, dos Portugueses, os piores desprezavam a Pátria — e os melhores ignoravam a Pátria.
Additional Excerpts
Opinaram alguns ouvintes que era justo indagar-se a residencia de Manuel de Castro. Sairam logo alguns na colla dos que estavam com elle e ainda alcançaram dois no Rocio. Não duvidaram estes declarar que o seu amigo morava no largo de S. Roque e ácerca da douda nenhuma suspeita souberam esclarecer.
Do Rossio, o ruído das carroças, os gritos errantes de pregões, o rolar dos americanos, subiam, numa vibração mais clara, por aquele ar fino de Novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul-ferrete, vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as copas mesquinhas das árvores de município, a gente vadiando pelos bancos: e essa susurração lenta de cidade preguiçosa, esse ar validado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a pouco naquele abafado gabinete e resvalando pelos veludos pesados, pelo verniz dos móveis, envolver Carlos numa indolência e numa dormência…
Numa dessas noites, eu saía de uma confeitaria do Rossio, de comprar trouxas de ovos para levar à minha Adélia - quando encontrei o dr. Margaride, que me anunciou, depois do seu abraço paternal, que ia a S. Carlos ver o «Profeta». […]
Com o meu inútil cartucho de trouxas de ovos, lá fui subindo melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a Rua Nova do Carmo.
Entretanto, seguia rapidamente para o Rossio, onde morava o seu amigo íntimo, o Carvalho, aquele que fora director da Alfândega de Cabo Verde e casara rico.
Daí a dois dias, pela manhã, Basílio, no Rossio, procurava com o olhar em redor um "coupé" decente. Mas o Pintéus, avistando-o de longe, lançou a parelha. - Cá está o Pintéus, meu amo! - Parecia encantado de tornar a ver o sr. D. Bazilinho. E apenas ele lhe disse:
- Lá acima, à Patriarcal, ó Pintéus!
- A casa da senhora? Pronto, meu amo. - E endireitando-se na almofada, bateu.
Quando a tipóia parou à porta de Jorge - o Paula saiu para a rua, a estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se logo na janela.
À noitinha saía, a dar duas voltas no Rossio. Abafava-se, no ar pesado e imóvel: a todos os cantos se apregoava monotonamente «Água fresca!» Pelos bancos, debaixo das árvores, vadios remendados dormitavam; em redor da praça, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam vagarosamente; as claridades dos cafés reluziam; e gente encalmada, sem destino, movia, bocejando, a sua preguiça pelos passeios das ruas.
Carlos teve uma exclamação de saudade. Pobre marquês! Fora uma das suas fortes impressões, nesses últimos anos - aquela morte do marquês, sabida de repente ao almoço, numa banal notícia de jornal!... E através do Rossio, andando mais devagar, recordavam outros desaparecimentos: a D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hidrópica; o D. Diogo, casado por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite numa tipóia ao sair dos cavalinhos…
Era uma noite de Maio, macia e quente. E, passeando ambos em torno das fontes secas do Rossio, Castanheiro, que sobraçava um rolo de papel e um gordo fólio encadernado em bezerro, depois de recordar as cavaqueiras geniais da Rua da Misericórdia, de maldizer a falta de intelectualidade de Vila Real de Santo António — voltou sofregamente à sua Ideia, suplicou a Gonçalo Mendes Ramires que lhe cedesse para os "Anais" esse romance que ele anunciara em Coimbra, sobre o seu avoengo Tructesindo Ramires, alferes-mor de Sancho I.
Basílio tinha sido apenas um «pândego» e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta: partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipóia despedaçada num sábado de touros; ceias repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atónita dum polícia; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do Entrudo. As únicas mulheres mesmo que apareciam na sua história, além das Lolas e das Carmens usuais, eram a Pistelli, uma dançarina alemã cujas pernas tinham uma musculatura de atleta, e a condessinha de Alvim, uma doida, grande cavaleira, que se separara de seu marido depois de o ter chicoteado, e que se vestia de homem para bater ela mesmo em trem de praça do Rossio ao Dafundo.
Tomaram a tipóia. No Rossio, Alencar, que passava, que os viu, parou, sacudiu ardentemente a mão no ar. E então Carlos exclamou, com uma surpresa que já o assaltara essa manhã no Bragança:
- Ouve cá, Ega! Tu agora pareces íntimo do Alencar! Que transformação foi essa?
Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo — e Gonçalo ainda o avistou, na porta e claridade da Tabacaria Nunes, agitando o braço esguio de apóstolo diante dum sujeito obeso, de vasto colete branco, que recuava com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso charuto e da doce noite de Maio.
O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado, ruminando a ideia do Patriota.
Ora foi justamente passeando com ele no Rossio, num dia de Agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do comendador G. Godinho. O dr. Margaride apresentou-mo, dizendo apenas: «O Xavier, teu primo, moço de grandes dotes.» Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que fora galante e desbaratara furiosamente trinta contos, herdados de seu pai, dono de uma cordoaria em Alcântara. O comendador G. Godinho, meses antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade à Secretaria da Justiça, com vinte mil réis por mês. E o Xavier agora vivia com uma espanhola chamada Carmen, e três filhos dela, num casebre da Rua da Fé.
Basílio achava preferível subirem a pé até ao Largo do Loreto. A noite estava tão agradável! E o andar fazia bem à sr.ª D. Felicidade!
Depois diante do Martinho, falou em irem tomar neve; mas D. Felicidade receava a frialdade, Luísa tinha vergonha. Pelas portas do café abertas, viam-se sobre as mesas jornais enxovalhados; e algum raro indivíduo, de calça branca, tomava plácidamente o seu sorvete de morango.
No Rossio, sob as árvores, passeava-se; pelos bancos, gente imóvel parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos passavam, com o chapéu na mão, abanando-se, o colete desabotoado; a cada canto se apregoava água fresca «do Arsenal»; em torno do largo, carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céu abafava - e na noite escura, a coluna da estátua de D. Pedro tinha o tom baço e pálido de uma vela de estearina colossal e apagada.
Um ano depois da Formatura, Gonçalo foi a Lisboa por causa da hipoteca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo foro anual de dez réis e meia galinha, devido ao abade de Praga, andava empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hipotecário; — e também para conhecer mais estreitamente o seu chefe, o Brás Vitorino, mostrar lealdade e submissão partidária, colher algum fino conselho de conduta política. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da velha marquesa de Louredo, a «tia Louredo», que morava a Santa Clara, esbarrou no Rossio com José Lúcio Castanheiro, então empregado no Ministério da Fazenda, na repartição dos Próprios Nacionais. Mais defecado, mais macilento, com uns óculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo, como em Coimbra, na chama da sua Ideia - «a ressurreição do sentimento português!»
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