Grémio Literário
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
- Você, Dâmaso, tem génio, tem língua... Um dia esquece-se, e no Grémio, sem querer, na cavaqueira depois do teatro, lá lhe escapa uma palavra contra Carlos... Sem esta precaução, aí recomeça a questão, o escarro, o duelo... Assim já Carlos não se pode queixar.
Additional Excerpts
Em Lisboa, entre o Grémio e a Casa Havaneza, já se começava a falar «do arranjinho do Ega». Ele todavia procurava pôr a sua felicidade ao abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas precauções tanta sinceridade como prazer romântico do mistério: e era nos sítios mais desajeitados, fora de portas, para os lados do Matadouro, que ia furtivamente encontrar a criada que lhe trazia as cartas dela... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce afectado com que espreitava as horas) transbordava a imensa vaidade daquele adultério elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, que, diante de Carlos e dos outros, nunca até aí mencionara o nome dela, nem deixara jamais escapar um lampejo de exaltação.
Decidiram ir ao Grémio, mandar de lá um bilhete chamando o Cruges - «para um caso urgente de amizade e de arte».
- Com quê - dizia o Ega continuando a esfregar as mãos, enquanto a tipóia trotava para a Rua de S. Francisco - com quê, demolir o nosso Dâmaso?
- Sim, é necessário acabar com esta perseguição. Chega a ser ridículo... E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por algum tempo. Eu preferia a estocada. Senão deixo-te a ti arranjar os termos de uma carta forte...
- Hás-de ter uma boa carta! - disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
No Grémio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por ele na sala das «Ilustrações». O conde de Gouvarinho e Steinbroken conversavam de pé, no vão duma janela. E foi uma surpresa. O ministro da Finlândia abriu os braços para o "cher" Maia, que ele não vira desde a partida de Afonso para Santa Olávia. Gouvarinho acolheu o Ega risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre eles se formara nesse Verão, em Sintra: mas o aperto de mão a Carlos foi seco e curto. Já dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurara de leve e de passagem «um
como está, Maia?» em que se sentia arrefecimento. Ah! já não eram essas efusões, essas palmadas enternecidas pelos ombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam "cigarretes" na cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonara a senhora condessa de Gouvarinho, a Rua de S.
Marçal e o cómodo sofá em que ela caía com um rumor de saias amarrotadas - o marido amuava, como abandonado também.
- Tenho tido saudade das nossas belas discussões em Sintra! - disse ele, dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outrora pertencia ao Maia. Tivemo-las de primeira ordem!
Eram realmente «pegas tremendas» no pátio do Vítor sobre literatura, sobre religião, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por causa da divindade de Jesus.
E [Dâmaso] desabafou, num prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao peito, com os olhos marejados de lágrimas. Fora Carlos, Carlos, que o desfeitiara a ele, mortalmente! […] Caramba, ele é que devia mandar desafiar Carlos! Mas não! fora prudente, evitara o escândalo por causa do sr. Afonso da Maia... Queixara-se de Carlos, é verdade... Mas no Grémio, na Casa Havanesa, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prega-lhe uma destas!
Mas tudo isto ficava règiamente compensado, quando à noite, num sofá do Grémio, ou ao chá numa casa amiga, ele podia dizer, correndo a mão pelo cabelo:
- Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bricabraque, discutimos... Um dia chique! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos às colchas.
Nesse domingo, justamente, deviam ir às colchas, ao Lumiar. Carlos concebera um "boudoir", todo revestido de colchas antigas de cetim, bordadas a dois tons especiais, pérola e botão de ouro. O tio Abraão esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos subúrbios; e nessa manhã viera anunciar a Carlos a
existência de duas preciosidades, "so beautiful! oh! so lovely!" em casa de umas senhoras Medeiros que esperavam o Sr. Maia às duas horas…
O amigo que Carlos gostava de ver entrar era o Cruges - que vinha da Rua de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O maestro sabia que Carlos ia todas as manhãs ao prédio ver a «miss inglesa»: e muitas vezes, inocentemente, ignorando o interesse de coração com que Carlos o escutava, dava-lhe as últimas notícias da vizinha...
- A vizinha lá ficou agora a tocar Mendelsshon... Tem execução, tem expressão, a vizinha... Há ali estofo... E entende o seu Chopin.
Se ele não aparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscá-lo: entravam no Grémio, fumavam um charuto nalguma sala isolada, falando da vizinha:
Cruges achava-lhe «um verdadeiro tipo de "grande dame"».
E, como toda essa semana aquele moço pontual não apareceu no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi uma manhã a casa dele, à Lapa. Mas aí, o criado (um galego achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Dâmaso trazia entalado numa casaca e mortalmente aperreado em sapatos de verniz) afirmou-lhe que o sr. Dâmasosinho estava de boa saúde, e até saíra a cavalo. Carlos veio então ao tio Abraão; o tio Abraão também não avistara, havia
dias, aquele bom senhor Salcede, "that beautiful gentleman"! A curiosidade de Carlos levou-o ao Grémio: no Grémio nenhum criado vira ultimamente o sr. Salcede. «Está por aí de lua de mel com alguma bela andaluza» pensou Carlos.
Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Grémio, Dâmaso abandonou logo a partida, indiferente à indignação dos parceiros, para se vir colar à ilharga do Maia, oferecer-lhe marrasquino ou charutos, segui-lo de sala em sala como um rafeiro.
[…]
Depois, um dia, Taveira apareceu no Ramalhete com uma extraordinária história. Na véspera, no Grémio (tinham-lhe contado, ele não presenciara) um sujeito, um Gomes, num grupo onde se comentavam os Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Dâmaso, que estava ao lado mergulhado na «Ilustração», levantou-se, muito pálido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao sr. Gomes se ele ousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a afronta, por ser raquítico de nascença - e porque era inquilino de Dâmaso e andava muito atrasado na renda. Afonso da Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete.
Em silêncio, até casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cólera contra o Dâmaso. Aí estava pois rasgada por aquele imbecil a penumbra suave e favorável em que se abrigara o seu amor! Agora já se pronunciava o nome de Maria Eduarda no Grémio: o que o Dâmaso dissera ao Ega, repeti-lo-ia a outros, na Casa Havanesa, no Restaurante Silva, talvez nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria daí por diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarelice reles do Dâmaso!
O maestro abalara, quando diante do Grémio estacou a todo o trote uma caleche. De dentro saltou o Teles da Gama que, ainda com a mão no fecho da portinhola, gritou aos dois amigos:
- O Gouvarinho? está lá em cima?
- Está... Novidade fresca?
- Os homens caíram. Foi chamado o Sá Nunes!
E enfiou pelo pátio, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar até ao portão do Cruges. As janelas do primeiro andar estavam abertas, sem cortinas. Carlos, erguendo para lá os olhos, pensava nessa tarde das corridas em que ele viera no faetonte, de Belém, para ver aquelas janelas: ia então escurecendo, por traz dos estores fechados surgira uma luz, ele contemplara-a como uma estrela inacessível... Como tudo passa!
Retrocederam para o Grémio. Justamente o Gouvarinho e Teles atiravam-se à pressa para dentro da caleche que esperara.
Ega então tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma "cigarrete", abotoou devagar o jaquetão.
- Tu não tens visto o Dâmaso?
- Nunca mais me apareceu - disse Carlos. Creio que está amuado... Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos...
- Devia ser antes com a bengala. O Dâmaso anda aí, por toda a parte, falando de ti e dessa senhora, tua amiga... A ti chama-te «pulha», a ela pior ainda. É a velha história; diz que te apresentou, que te meteste de dentro, e como para essa senhora é uma questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ela lhe
passou o pé. Vês daí a infâmiazinha. E isto tagarelado pelo Grémio, pela Casa Havanesa, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe pôr cobro.
Os dois ficaram sós. E Ega recomeçou, detalhando como Guimarães, duas ou três vezes nos intervalos, lhe viera falar de coisas indiferentes, do sarau, de política, do papá Hugo, etc. Depois ele procurara Carlos para irem um bocado ao Grémio. Terminara por sair com o Cruges. E passavam defronte do Aliança…
Não sejas o costumado Dâmaso! Não te vás pôr a alardear isso pelo Grémio e pela Casa Havanesa!
Então Ega perguntou, do fundo do sofá onde se enterrara, se, nesses últimos anos, ele não tivera a ideia, o vago desejo de voltar para Portugal...
Carlos considerou Ega com espanto. Para quê? Para arrastar os passos tristes desde o Grémio até à Casa Havaneza? Não! Paris era o único lugar da terra congenere com o tipo definitivo em que ele se fixara: «o homem rico que vive bem».
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