Casa Havanesa

Eça de Queirós — O Crime do Padre Amaro
Nos fins de Maio de 1871 havia grande alvoroço na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam as portas, e alçando-se em bicos de pés esticavam o pescoço, por entre a massa dos chapéus, para a grade do balcão, onde numa tabuleta suspensa se colavam os telegramas da Agência Havas; […] e pelo passeio, no Largo do Loreto, defronte ao pé do est… ver más

Additional Excerpts

E agora ali tinha essa carta providencial, em que o homem solenemente se declarava bêbedo. «Sou um bêbedo, estou sempre bêbedo»! Assim o dizia, no seu papel de monograma de ouro, o sr. Salcede, num medo vil de cão goso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia de encafuar tão decisivo documento no fundo dum gavetão? Publicá-lo na «Gazeta Ilustrada» ou n' «A Tarde» não podia, infelizmente, por interesse de Carlos. Mas porque o não mostraria «em segredo», como uma curiosidade psicológica, ao Craft, ao marquês, ao Teles, ao Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cópia ao Taveira que, ressentido eternamente da questão com o Dâmaso em casa da Lola Gorda, correria a lê-la «em segredo» na Casa Havanesa, no bilhar do Grémio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a sr.ª D. Raquel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coração era por confissão própria um caluniador e um bêbedo!... Delicioso!
Sem me decidir, pensando em Novalis que também assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas de Hegel - perguntei a Vidigal se o poeta das «Lapidárias» residia em Lisboa… Não! Fradique viera de Inglaterra visitar Sintra, que adorava, e onde comprara a Quinta da Saragoça, no caminho dos Capuchos, para ter de Verão em Portugal um repouso fidalgo. Estivera lá desde o Dia de Santo António: - e agora parara em Lisboa, no Hotel Central, antes de recolher a Paris, seu centro e seu lar. De resto, acrescentou Marcos, não havia como Fradique ninguém tão simples, tão alegre, tão fácil. E, se eu desejava conhecer um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo, às duas, depois da missa do Loreto, à porta da Casa Havanesa.
[…] O Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçara o Ega de pontapés, por ele ter escrito à sua mulher uma carta imunda. Os que não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na cabeça; e os que sabiam, os que havia seis meses sorriam da intimidade do Ega com os Cohens, afectavam também acreditar, cerravam os punhos de indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o Grémio e a Casa Havanesa, folgava em «enterrar» o Ega.
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