Celas
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longos anos de quieto estudo o avô preparara-lhe uma linda casa em Celas, isolada, com graças de "cottage" inglês, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as árvores. Um amigo de Carlos (um certo João da Ega) pôs-lhe o nome de «Paços de Celas», por causa de luxos então raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de marroquim, panóplias d…
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Additional Excerpts
Desde a sua ligação de rapazes em Coimbra, nos Paços de Cela, fora ele o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos não tinha uma aventura banal de hotel, de que não mandasse ao Ega «um relatório».
Carlos atirou a "cigarrete" para a salva - e escorregando pela roupa abaixo, todo invadido por uma onda de recordações alegres, exclamou da profundidade do seu conforto, no antigo tom de ênfase boémia dos Paços de Celas.
Carlos tinha desde os onze anos este criado de quarto, que viera com o Brown para Santa Olávia, depois de ter servido em Lisboa, na Legação inglesa, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, várias vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paços de Celas, que Baptista começou a ser um
personagem: Afonso correspondia-se com ele de Santa Olávia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, partilharam das mesmas sanduíches no bufete das gares; «Tista» tornou-se um confidente. […] Mas conservava-se tão fino e tão desembaraçado, como quando em Londres aprendera a valsar e a boxar na rude balbúrdia dos salões-dançantes, ou como quando mais tarde, durante as férias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o muro do quintal do senhor escrivão de Fazenda - aquele que tinha uma mulher tão garota.
Em Agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas. Afonso viera de Santa Olávia, Vilaça de Lisboa; toda a tarde no quintal, de entre as acácias e as belas sombras, subiram ao ar molhos de foguetes; e João da Ega, que levara o seu último R no seu último ano, não descansou, em
mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapésio e em roda do poço, para a iluminação da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Vilaça, enfiado e trémulo, fez um "speech"; ia citar o nosso imortal Castilho quando sob as janelas rompeu, a grande ruído de tambor e pratos, o Hino Académico. Era uma serenata. - Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu à sacada, a perorar:
- Aí temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma - ou acabar de a matar, segundo as circunstâncias! A que parte remota destes reinos não chegou já a fama do seu génio, do seu "dog-cart", do sebáceo "acessit" que lhe
enodoa o passado, e deste vinho do Porto, contemporâneo dos heróis de 20, que eu, homem de revolução e homem de carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...
O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A filarmónica, outros estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as árvores do quintal, na sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de doce, não cessou de estalar o champagne. E Vilaça, limpando a testa, o pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo também:
- Grande coisa, ter um curso!
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