Rua do Carmo

Eça de Queirós — A Relíquia
Agora, à noitinha (enquanto Eleutério, no clube da Rua Nova do Carmo, jogava a manilha), eu tinha ali na alcova da Adélia a radiante festa da minha vida.

Additional Excerpts

Subiam pela Rua Nova do Carmo. Os candeeiros davam uma luz mortiça: as altas casas dos dois lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; e a patrulha, muito armada, descia passo a passo, sem ruído, sinistra e subtil. Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de lotaria; a sua voz aguda e chorosa prometia a fortuna, muitos contos de réis. […] Da fileira de tipóias, ao lado das grades da Praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: - Pronto, meu amo, pronto! Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, rondou - e Luísa desesperada reconheceu os olhos acarneirados do sujeito da pera. Entraram para a caleche. Luísa ainda se voltou para ver Basílio imóvel no largo, com o seu chapéu na mão: depois acomodou-se, pôs os pezinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, calada, as casas apagadas da Rua de S. Roque, as árvores de S. Pedro de Alcântara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins adormecidos da Patriarcal. A noite estava imóvel, de um calor mole: e desejava, sem saber porquê, rolar assim sempre, infinitamente, entre ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, sem cuidados, para alguma coisa de feliz que não distinguia bem! Um grupo diante da Escola ia tocando o «Fado do Vimioso»; aqueles sons entraram-lhe na alma como um vento doce, que fazia agitar brandamente muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.
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