Com perímetro superior a 10 quilómetros, o sistema fortificado de Elvas constitui uma das maiores fortificações abaluartadas do mundo, testemunhando sucessivas épocas de construção desde a ocupação muçulmana do século VIII até ao início do século XIX. Este complexo militar excecional integra castelo medieval, três cercas urbanas — duas islâmicas e uma fernandina —, fortificação moderna seisce…
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Com perímetro superior a 10 quilómetros, o sistema fortificado de Elvas constitui uma das maiores fortificações abaluartadas do mundo, testemunhando sucessivas épocas de construção desde a ocupação muçulmana do século VIII até ao início do século XIX. Este complexo militar excecional integra castelo medieval, três cercas urbanas — duas islâmicas e uma fernandina —, fortificação moderna seiscentista, Forte de Santa Luzia contemporâneo, Forte da Graça setecentista e quatro pequenos fortes oitocentistas.
Após reconquista definitiva em 1228, o castelo e cercas foram reconstruídos, sendo novamente reforçados no reinado de D. Fernando. A estrutura gótica actual, resultante de obras entre os séculos XIV e XVI, apresenta planta regular com torres rectangulares nos ângulos e meio das frentes expostas, criando pátio central rodeado por aposentos. A torre de menagem, reformada em finais do século XV, defende a porta da vila de arco apontado, enquanto no ângulo oposto ergue-se torre poligonal de arquitectura de Transição, concluída em 1509 e rasgada por dois níveis de troneiras.
As duas cercas islâmicas de planta ovalada irregular em taipa delimitam alcáçova e medina, conservando longos troços entre casario. A cerca da alcáçova possui Porta do Miradeiro com arco ultrapassado entre cubelos quadrangulares, e Porta do Templo de estrutura em cotovelo simples. A cerca da medina destaca-se pela Torre da Porta Nova, inicialmente torre albarrã facetada semelhante à Torre de Espantaperros de Badajoz do período almóada, e pela Torre Nova ou da Cadeia, erguida em 1367 com três pisos cobertos por abóbadas de berço.
Com as Guerras da Restauração iniciadas em 1641, Elvas tornou-se capital militar do Alentejo. A fortaleza moderna projectada por João Paschasio Cosmander entre 1645 e 1653 segue o Primeiro Método Holandês de Fortificação, constituindo exemplar mundial de excelência. A planta poligonal irregular compõe-se de sete baluartes, quatro meios-baluartes e um redente interligados por doze cortinas, circundada por fosso escavado na rocha. Destacam-se as três portas estratégicas cobertas por revelins: a Porta da Esquina a poente, com jogos cromáticos de mármore preto e branco em dois registos de ordens sobrepostas rematada em frontão interrompido; e as portas de Olivença e São Vicente seguindo tratadística maneirista.
O Forte de Santa Luzia, construído entre 1643 e 1648 segundo projecto de Cosmander e Jean Gilot, antecipa o sistema de Pagan com características inovadoras. A planta poligonal irregular integra reduto central rectangular separado por fosso, encimado pela casa do governador de planta quadrada com fachadas simétricas trabalhadas em massa. O recinto é circundado por fosso com revelins, caminhos cobertos e sistema de galerias de contramina.
O Forte da Graça, construído na segunda metade de Setecentos com projecto do Conde de Lippe e obras dirigidas por Étienne e António de Valleré, constitui obra-prima mundial segundo Christian, Príncipe de Waldeck. O recinto magistral quadrangular com quatro baluartes poligonais integra galeria da escarpa ao longo de todo perímetro e reduto central octogonal encimado pela casa do governador — transição entre Vauban e Montalembert com três níveis de casamatas de eficácia defensiva singular. A cisterna subterrânea apresenta invulgar planimetria em cruz grega com compartimentos interligados por anel circular. O fosso geral é circundado por profusão de obras exteriores, sobretudo na frente norte com hornaveque e revelim separados por três fossos.
No início do século XIX, o Duque de Wellington ordenou construção de quatro pequenos fortes em outeiros, complementando este sistema fortificado constitui um marco excepcional da evolução da arquitectura militar europeia.
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