- Pra o Martinho, hein?
E Artur foi-os seguindo timidamente, ansioso por ver o Martinho! Pareceu-lhe esplêndido, com a acumulação dos chapéus altos entre os espelhos dourados, sob uma névoa de fumo de tabaco, no brouhaha contínuo das conversas. Não se atreveu a entrar. À porta um grupo palrava, e Artur contemplava-o de longe, com devoção, pensando que deviam ser poetas e estadistas... Subiu-lhe então de repente ao cérebro um vapor excitante de emanações intelectuais: teve pressa de entrar naquela existência - relacionar-se, regalar-se das discussões sobre Arte e Ideal, «ser também de Lisboa»!
Chamou uma tipóia, e mandou bater para a praça da Alegria, para a casa do Damião! Recomeçara a chover e o lajedo reluzia à luz do gás. E encostado ao fundo do "coupé" que trotava ao comprido das grades escuras do Passeio, Artur ia pensando no fato novo que faria e nos filósofos que ia decerto encontrar «na catacumba» do Damião.
[…] Aquela ausência do Damião contrariava-o. Estava muito desconsolado. Contava com o Damião para o guiar, lhe mostrar Lisboa, apresentá-lo a escritores, escutar o seu drama, e a sua partida para o Algarve parecia alargar em torno dele uma solidão inesperada. Felizmente tinha as cartas de apresentação do Rabecaz.
Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro de Alcântara, penetrou sob as árvores e foi encostar-se às grades. A cidade cavava-se em baixo, no vale escuro, picado dos pontos de luz das janelas iluminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquelas luzes, debaixo daqueles tectos, que fermentação de vida! Quantos amores, quantos mistérios, crimes talvez! Ali, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres aristocráticas, nas suas salas, falavam de amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa!
Voltara-lhe a mesma sensação, sempre repetida, duma capital vasta, com uma intensa vida social, e olhava, vagamente exaltado, como se todas aquelas existências acumuladas lhe mandassem ao coração o bafo das paixões que lhes supunha.
Uma aragem fria fê-lo encolher-se no seu "paletot" cor de pinhão. Foi descendo, parando junto às vitrines, voltando-se para os rostos pálidos das mulheres, meio escondidos sob mantas de lã ou véus escuros, seguindo com os olhos as lanternas das carruagens ricas, que punham claridades sobre os casacos claros dos lacaios. Descendo sempre, chegou junto do rio. Estava escuro, havia um friozinho cortante, e as luzes dos mastros tremeluziam na noite. Veio-lhe, sem razão, uma melancolia, um sentimento de solidão. Àquela hora, todos estavam nas suas casas bem mobiladas, no brilho das "soirées", no conforto das convivências íntimas; as mulheres recebiam os seus amantes, amigos discutiam, fumando, em volta do "punch"... Como conseguiria fazer conhecimentos, relacionar-se, viver, furar, naquela grande cidade fumorosa? Agora tudo lhe parecia mais difícil, e as grandes fachadas sombrias das casas espalhavam em torno dele uma sensação de isolamento, de inacessibilidade...
- V. Ex.a quer favorecer um chefe de família desempregado? - disse uma voz lamentosa ao pé dele.
Artur aprumou-se e tirou cinco tostões da algibeira, que meteu na mão que lhe estendia um sujeito de chapéu alto e sobrecasaca coçada, a gola presa com um alfinete.
Aquela miséria entrevista entristeceu-o mais. O Aterro, longo, solitário, com um ventozinho frio, deu-lhe um sentimento de melancolia; o coração confrangeu-se-lhe, sentiu a necessidade de voltar para o Hotel, ver luz, estar debaixo dum tecto, reler o seu drama, para se fortalecer com a certeza do seu talento, e contar o seu dinheiro, para se animar com a evidência dos seus recursos. Pôs-se a caminhar depressa pela Rua do Arsenal; mas no Terreiro do Paço perdeu-se: confundia as ruas largas, já um pouco desertas, paralelas, infindáveis.
Andou, voltou: tinha vergonha de perguntar pelo Espanhol. Numa rua estreita, vozes, por trás de tabuinhas verdes, chamavam-no com pst-psts familiares: dois bêbados assustaram-no, cambaleando, praguejando, - e atarantado, já aflito, chamou uma tipóia que passava devagar.
- Prà Hotel Espanhol! - disse, subindo para a tipóia.
O cocheiro fitou-o um momento, admirado, mas imediatamente bateu a parelha. Artur sentou-se e acabava de fechar a vidraça quando o carro estacou.
- Então?
- Cá estamos, meu amo. O Espanhol é aqui.
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