A noite estava adorável. Havia um ar tépido de Verão, uma serenidade suave. A lua cheia reluzia como prata. E as ruas tinham o tom melancólico que dá o contraste da sombra e do luar. Genoveva quis ir a pé. E foram andando devagar, ao comprido do Passeio. Duas lojas ainda derramavam a sua luz escassa. Gente passeava. Aqui, além, uma mulher com um véu, aproximava-se, pedindo lugubremente esmola. As …
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A noite estava adorável. Havia um ar tépido de Verão, uma serenidade suave. A lua cheia reluzia como prata. E as ruas tinham o tom melancólico que dá o contraste da sombra e do luar. Genoveva quis ir a pé. E foram andando devagar, ao comprido do Passeio. Duas lojas ainda derramavam a sua luz escassa. Gente passeava. Aqui, além, uma mulher com um véu, aproximava-se, pedindo lugubremente esmola. As altas fachadas, cobertas de luar, tinham um aspecto abandonado. No Largo do Loreto, ao descerem para casa, Genoveva parou. Ao fim da Rua do Alecrim, o rio reluzia sob uma grande mancha trémula de lua.
- Se fossemos dar um passeio no rio?
Desceram ao Cais do Sodré. Dois barqueiros que fumavam, sentados num monte de pedregulhos, afirmaram que tinham um barco que era um regalo. […]
E daí a pouco, sentados no barco, afastavam-se, ao compaso dos remos, na água imóvel.
- Que linda noite! - disse Vitor.
A cidade elevava-se, com as fachadas batidas do luar; e as vidraças por vezes resplandeciam como velhas lâminas de prata. Os bicos de gás esmoreciam sob a abundância da luz pálida. E havia, no silêncio daquelas habitações mudas e brancas, como a tranquilidade duma contemplação extática. A lua cheia brilhava, dum modo silencioso e sereno. Um rastro faiscante corria, tremeluzia, sobre a água, como uma malha ou uma filigrana flutuante. Todo o resto da água tinha um vago tom azul-claro, que fora, para o largo, tomava um tom mais espelhado, dum brilho tranquilo. Uma névoa luminosa esbatia o horizonte na Outra Banda. E os costados dos navios, as mastreações, tinham como um ar esbatido e ligeiro.
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