Chiado

Eça de Queirós — A Capital!
Ao outro dia, depois do almoço, por um sol magnífico, Artur preparou-se para ir visitar, com a sua carta de recomendação, o sobrinho do Rabecaz, o senhor Venâncio Guedes. Para se apresentar com "chic", comprou, num armazém de fato feito, um "paletot" de pano azulado com gola de veludo, que lhe aconselhou um caixeiro de ar profundamente infeliz; depois, num sapateiro, ornou-se de botas de verniz, e… see more

Additional Excerpts

Partiram às nove horas, numa caleche descoberta; ia a Concha e a Carmen. Melchior, que parecia entusiasmado, mandara o Teso bater pelo Chiado: e direito no assento, com o chapéu ao lado, o charuto flamejante, atirou adeuses com as pontas dos dedos para os grupos escuros na Casa Havanesa, no Baltreschi. Artur, um pouco embaraçado, encolhido, admirava a Concha: a sua mantilha preta dava uma palidez mais mimosa, mais tocante, ao seu rosto, de feições finas, e dum tom melancólico: e os seus olhos árabes, húmidos, bem rasgados na sombra, tinham uma negrura mais profunda; recostava-se com um abandono lânguido, mas senhoril, retraindo castamente os pezinhos para não encontrar as botas de Artur. Logo no Aterro, o Melchior começou as suas pilhérias […] Tinham passado Pedrouços, adormecido e escuro. E a Carmen então, muito solicitada, entoou a sua "malagueña": Melchior, mascando o charuto com entusiasmo, fazia o compasso, saracoteando a cintura, e em acompanhamento batia as mãos em cadências: a voz da rapariga era acre e mordente e as notas arrastadas, os á-á-áhs muito modulados, perdiam-se pela noite, misturados ao trotar batido das ferraduras, ao rodar da tipóia no areado do macadame: no alto silêncio anilado estava a lua, imóvel, muito séria: e um ar vivo passava, salgado das emanações do rio. […] No Dafundo é que haviam de cantar. Se lá estivesse o Zé das Três – Artur é que havia de ver! Era de chorar! E declarou que tinha fome. Também, iam fazer uma ceia real! […] - Viva o salero! Chegámos, "niñas"! Estavam, com efeito, diante do Hotel, no Dafundo. Melchior salvou vivamente, mas ficou à portinhola, escutando petrificado: do Hotel, vinham gritos de mulheres, uma luz corria, no primeiro andar: - Temos chinfrim, disse o Teso, - atirando a manta às ancas da relha. […] A volta a Lisboa, foi lúgubre: as raparigas falavam baixo, num vago terror: tinham reconhecido o rapaz - era o Álvaro, o "querido" da Adelaide, da Rua do Norte: fora questão de ciúmes, decerto: gabavam-lhe a coragem, a brancura da pele, vagamente enamoradas dele. Melchior, mudo como uma estátua, sem veia, torcendo nervosamente o bigode, ia sondando os recantos escuros do caminho, com susto de assaltos possíveis, apressando o Teso, ávido de se encontrar em Lisboa, no sossego das ruas populosas, sob a protecção das patrulhas. Só quando a tipóia rolou pela Rua do Ouro, começou a tranquilizar-se. Era uma pândega estragada! E deblaterava agora, contra tudo o que até aí fora celebrando - os fadistas, a solidão do Dafundo, e as relações das prostitutas. Foram cear ao Silva.
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