Olivais

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
No dia seguinte Craft, que havia uma semana não ia ao Ramalhete, passeava na quinta antes de almoço - quando apareceu Carlos. Apertaram as mãos, falavam um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o horizonte, perguntou rindo: - Você quer-me vender tudo isto, Craft? O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mãos nas algibe… see more

Additional Excerpts

- Vamos ver a casa - disse ela. Começaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papéis claros, abriam sobre o rio e sobre os campos. […] - Oh, a vista é que é deliciosa! - exclamou ela chegando-se à janela. Junto do peitoril crescia um pé de margaridas, e ao lado outro de baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal aparada, um pouco amarelada já pelo calor de Julho; e entre duas grandes árvores que lhe faziam sombra, havia ali, para os vagares da sesta, um largo banco de cortiça. Um renque de arbustos cerrados parecia fechar a quinta daquele lado como uma sebe. Depois a colina descia, com outras quintarolas, casas que se não viam, e uma chaminé de fábrica; e lá no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol, até às montanhas de além-Tejo, azuladas também na faiscação clara do céu de Verão. - Isto é encantador! - repetia ela. - É um paraíso! Pois não lhe dizia eu? É necessário pôr um nome a esta casa... Como se há de chamar? Vila-Marie? Não. Château-Rose... Também não, credo! Parece o nome de um vinho. O melhor é baptizá-la definitivamente com o nome que nós lhe dávamos. Nós chamávamos-lhe a Toca. Maria Eduarda achou originalíssimo o nome de Toca.
[…] Carlos e Maria pensavam também em abandonar os Olivais. Carlos não poderia, por dever doméstico, permanecer ali instalado desde que o avô recolhesse ao Ramalhete. Além disso, aquele fim de Outono ia escuro e agreste; e a Toca era agora pouco bucólica, com a quinta desfolhada e alagada, uma névoa sobre o rio, e um fogão único no gabinete de cretones - além da sumptuosa chaminé da sala de jantar, que, por entre os seus núbios de olhos de cristal, soltava uma fumaraça odiosa quando o Domingos a tentava acender. Numa dessas manhãs, Carlos, que ficara até tarde com Maria, e depois no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e água desencadeado de madrugada - ergueu-se às nove horas, veio à Toca. As janelas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manhã clareara; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma linda e silenciosa graça de Inverno. Carlos passeava, olhando os vasos onde os crisântemos floriam, quando retiniu a sineta do portão. Era o toque do carteiro. Justamente ele escrevera dias antes ao Cruges, perguntando se estaria desocupado, para os primeiros frios de Dezembro, o andar da Rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, acompanhado por «Niniche». Mas o correio, nessa manhã, consistia apenas numa carta do Ega e dois números de jornal cintados - um para ele, outro para «Madame Castro Gomes, na quinta do sr. Craft, aos Olivais». Caminhando sob as acácias, Carlos abriu a carta do Ega.
Assim ia passando o Verão nos Olivais. No começo de setembro, Carlos soube por uma carta do avô que Craft devia chegar a Lisboa, num sábado, ao Hotel Central: e correu lá cedo, logo nessa manhã, a ouvir as novidades de Santa Olávia. Achou Craft já a pé, diante do espelho, fazendo a barba. A um canto do sofá, Euzèbiosinho, que viera na véspera à noite de Sintra e estava também no hotel, limpava as unhas com um canivete, em silêncio, coberto de negro.
Mas eram quase onze horas, e ele tinha de ir aos Olivais. No dia seguinte, sábado, dia belo entre todos e solene para o seu coração, Maria Eduarda devia enfim visitar a quinta do Craft: e ficara combinado, na véspera, que passariam lá as horas do calor, até tarde, sós, naquela casa solitária e sem criados, escondida entre as árvores. Ele pedira-lho assim, hesitante e a tremer: ela consentira logo, sorrindo e naturalmente. Nessa manhã ele mandara aos Olivais dois criados para arejar as salas, espanejar, encher tudo de flores. Agora ia lá, como um devoto, ver se estava bem enfeitado o sacrário da sua deusa... E era através destes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe aparecia outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarelice do Dâmaso! Até aos Olivais, não cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para aniquilar o Dâmaso. No seu amor não haveria paz, enquanto aquele vilão o andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessário enxovalhá-lo de tal modo, com tal publicidade, que ele não ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o "coupé" parou à porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Dâmaso, uma tarde, no Chiado, com aparato… Mas depois, ao regressar da quinta, vinha já mais calmo. Pisara a linda rua de acácias que os pés dela pisariam na manhã seguinte: dera um longo olhar ao leito que seria o leito dela, rico, alçado sobre um estrado, envolto em cortinados de brocatel cor de ouro, com um esplendor sério de altar profano… Daí a poucas horas, encontrar-se-iam sós naquela casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o Verão os seus amores viveriam escondidos nesse fresco retiro de aldeia; e daí a três meses estariam longe, na Itália, à beira dum claro lago, entre as flores da Isola Bela... No meio destas voluptuosidades magníficas, que lhe podia importar o Dâmaso, gorducho e reles, palrando em calão nos bilhares do Grémio! Quando chegou à rua de S. Francisco resolvera, se visse o Dâmaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos. Maria Eduarda fora passear a Belém com Rosa, deixando-lhe um bilhete, em que lhe pedia para vir à noite "faire un bout de causerie". Carlos desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na carteira como uma doce relíquia; e saía o portão, no momento em que o Alencar desembocava defronte, da Travessa da Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braços abertos; depois vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
Então, a propósito do Abraão, falou a Craft dessas belas colecções dos Olivais, que o Ega, apesar do desdém que afectava pelo "bibelot" e pelo móvel de arte, lhe descrevera como sublimes. Craft encolheu os ombros. - O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se pode chamar ao que eu tenho uma colecção. É um bricabraque de acaso... De que, de resto, me vou desfazer! Isto surpreendeu Carlos. Compreendera das palavras do Ega ser essa uma colecção formada com amor, no laborioso decurso de anos, orgulho e cuidado duma existência de homem... Craft sorriu daquela legenda. A verdade era que só em 1872, ele começara a interessar-se pelo bricabraque; chegava então da América do Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, acumulara-o nessa casa dos Olivais, alugada então por fantasia, uma manhã que aquele pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera pitoresco, sob o sol de abril. Mas agora se pudesse desfazer-se do que tinha, ia dedicar-se então a formar uma colecção homogénea e compacta de arte do século dezoito. - Aqui nos Olivais? - Não. Numa quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio. Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um "coupé" da Companhia, chegando a largo trote do lado da Rua do Arsenal, veio estacar à porta.
Carlos apareceu nessa noite, já tarde, transido de frio, com um monte de bagagens - porque abandonara definitivamente os Olivais. Maria Eduarda regressava também a Lisboa, para o primeiro andar da Rua de S. Francisco, tomado agora por seis meses, tapetado de novo pela mãe Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da Toca. Depois de cear, ao fogão, acabando o charuto, relembrou infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manhã tomado dentro de uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do marquês, as longas cavaqueiras ao café com as janelas abertas e as borboletas voando em torno aos candeeiros... Fora as cordas de água, sob o vento de Inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume. - Quando esta tarde dei pela última vez uma volta na quinta - disse por fim Carlos - já não havia uma única folha nas árvores... Tu não sentes sempre uma grande melancolia nestes fins de Outono?... - Imensa! - murmurou Ega lugubremente.
- E onde é essa casa? - perguntou Maria Eduarda. - Nos Olivais, muito perto daqui, vai-se lá numa hora de carruagem... Explicou-lhe detalhadamcnte o sítio - acrescentando, com os olhos nela, e com um sorriso inquieto: - Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se for para lá instalar-se, e depois vier o calor, quem é que a torna a ver? Ela pareceu surpreendida: - Mas que lhe custa, a si, que tem cavalos, que tem carruagens, que não tem quase nada que fazer?... Assim ela achava natural que ele continuasse nos Olivais as suas visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossível renunciar ao encanto desta intimidade, tão largamente oferecida, e decerto mais doce na solidão de aldeia. Quando acabou a sua chávena de chá - era como se a casa, os móveis, as árvores fossem já seus, fossem já dela. E teve ali um momento delicioso, descrevendo-lhe a quietação da quinta, a entrada por uma rua de acácias, e a beleza da sala de jantar com duas janelas abrindo sobre o rio…
Ao outro dia, por uma radiante manhã de Julho, Carlos saltava do "coupé", com um molho de chaves, diante do portão da quinta do Craft. Maria Eduarda devia chegar às dez horas, só, na sua carruagem da Companhia. O hortelão, dispensado por dois dias, fora a Vila Franca; não havia ainda criados na casa; as janelas estavam fechadas. E pesava ali, envolvendo a estrada e a vivenda, um desses altos e graves silêncios de aldeia, em que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos. Logo depois do portão, penetrava-se numa fresca rua de acácias, onde cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, aparecia o quiosque, com tecto de madeira, pintado de vermelho, que fora o capricho de Craft, e que ele mobilara à japonesa. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janelas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre três degraus, flanqueados por vasos de louça azul cheios de cravos. Só o meter a chave devagar e com uma inútil cautela na fechadura daquela morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janelas: e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doçura rara, e uma alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo bom Deus para alumiar a festa do seu coração. Correu logo à sala de jantar, a verificar se, na mesa posta para o "lunch", se conservavam ainda viçosas as flores que lá deixara na véspera. Depois voltou ao "coupé" a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em flanela, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia só passando uma saloia montada na sua égua.
Justamente alguns dias depois, estando ambos sós, a falar de planos de Verão, Carlos aludiu aos Olivais, com entusiasmo, relembrando algumas das preciosidades do Craft, o doce sossego da casa, a clara vista do Tejo... Aquilo realmente fora obter por uma mão cheia de libras um pedaço do Paraíso... Era à noite, no quarto de Carlos, já tarde. E o Ega, que passeara com as mãos nas algibeiras do "robe-de-chambre", encolheu os ombros, impaciente, farto daqueles louvores eternos à casinhola do Craft. - Essa concepção do Paraíso - exclamou ele - parece-me dum estofador da Rua Augusta! Como Natureza, couves galegas; como decoração, os velhos cretones do gabinete, desbotados já por três barrelas... Um quarto de dormir lúgubre como uma capela de santuário... Um salão confuso como o armazém dum cara-de-pau, e onde não é possível conversar... A não ser o armário holandês, e um ou outro prato, tudo aquilo é um lixo arqueológico... Jesus! O que eu odeio bricabraque!
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