Espinho
Ramalho Ortigão — As Farpas I
São suas execlências os juízes.
Familiares e gaiteiros chapéus de palha campesina lhes cobrem as cãs venerandas, tantas vezes desgrenhadas nos vendavais do foro pelo sopro inóspito da oratória tribunícia dizendo o crime nefando. De seus ombros, afeitos ao peso da responsabilidade social e à ondulação majestática da beca, pende — lícito jogo das brisas — a rabona caseira de uma jovial lustrina, ou …
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Additional Excerpts
As senhoras vão como os homens à acreditada batota de Espinho. Lá tive a alegria de ver algumas apontando à roleta.
Mas o ponto dado às reuniões do belo sexo é de preferência — penso eu — a Assembleia. Neste virente jardim do ideal, todas as nobres artes vicejam portentosamente, bafejadas pela excitante brisa marítima. A poesia lírica, a música, a dança pegam aí de estaca ou de enxertia com um vigor admirável. Enroscando-se em harmonioso concerto, o verso alexandrino, a cavatina de "tiple", a fantasia ao piano e a quadrilha francesa bracejam e desabrocham em abundantes e imarcessíveis louros, envolvendo as fontes dos banhistas todos, como num escabeche de glória — imenso molho verde, molho de vilão em que sobrenadam os génios, como os dentes de alho.
Ao longo do «Chiado» as batotas são quase tão numerosas como as filiais das lojas dos Lóios e dos Clérigos. Um lojista, a quem pedi o obséquio de me trocar uma libra, informou-me delicadamente de que não tinha prata, mas que eu a encontraria na roleta da porta ao lado.
A falta de tempo, que tantas vezes obsta ao cumprimento dos nossos mais sacrossantos deveres, me impediu de visitar todas as casas de tavolagem que exornam esta tão alegre e afamada praia.
Aquela em que estive, e que denominam o "Celeste Império", pareceu-me ser um estabelecimento inteiramente respeitável e digníssimo. Recomendo-o vivamente a todos os viajantes, principalmente aos filhos-família, aos mancebos morigerados que desejem tornar-se benquistos na sociedade, aos caixeiros de comércio que pretendam estabelecer-se por conta própria, aos que tiverem negócios pendentes dos tribunais ou das repartições do Estado, e finalmente em geral a todos quantos prezarem a sólida convivência de pessoas gradas e doutas, que mais tarde lhes poderão servir de auxílio, de proteção e de arrimo na espinhosa senda da vida.
Em Lisboa, por exemplo, não se imagina o trabalho enorme, a dificuldade muitas vezes insuperável que o pretendente de província encontra em chegar à fala com um senhor diretor-geral! No "Celeste Império", pelo contrário, as coisas deslizam de per si suavemente, pondo-nos em contacto imediato com todas aquelas personagens que desejarmos conhecer. Basta uma placa de dois tostões e uma simples palavra para a gente se dirigir a quem quiser: — "Piso no valete com o senhor conselheiro."
[…]
O edifício do "Celeste Império" é espaçoso e nobre. Nada da futriquice das repartições públicas, dos estabelecimentos de instrução ou das secretarias de Estado! Soberbos espelhos em magníficas molduras imitando o charão, mas imitando-o sem servilismo nem baixeza, cobrem os muros, de grande pé direito, nos espaços intermediários das janelas amplas e rasgadas até ao teto. A ventilação é excelente e a luz penetra largamente nas salas com uma profusão que ainda não vi em nenhuma das escolas nem das galerias do país.
As mesas são vastas e sólidas, permitindo aos pontos toda a liberdade de movimentos, quer para pôr o seu dinheiro sobre as cartas do monte, nos números da roleta ou no bolo do "baccarat", quer para chamar a si os ganhos, ou vice-versa, quer para se desforrar da desilusão dos palpitantes roendo as unhas, arrancando os cabelos ou rilhando a bengala.
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