Foz

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
- Vocês não têm coração - exclamou Ega - enchendo outro grande copo. Vocês não sabem, eu adorava aquela mulher! Então largou a falar de Raquel. E teve ali, decerto, os momentos melhores de toda aquela paixão - porque pôde, sem escrúpulo, fazer reluzir a sua auréola de amante, banhar-se no mar de leite das confidências vaidosas. Começou por contar o encontro com ela na Foz - enquanto Craft, sem per… see more

Additional Excerpts

No principio da estação, em agosto, começavam a chegar os banhistas! Vinham as familias do Douro. Via-as a gente em magotes, confrangidas, arrepiadas, olhando para o mar com uma grande sensação de espanto, de pavor e de frio. […] Tinham os seus passeios favoritos: Ao farol da Senhora da Luz, onde o faroleiro deixava olhar pelo óculo para os velhos telegrafos, cujo aparelho de taboinhas, armado no viso dos montes, parecia espreguiçar-se e bocejar as notícias no azul do espaço; Pela manhã, á feira onde estacionavam os carros das melancias, as canastras com os frangos, os gigos de uvas, a louça branca e amarela, e as bilhas do leite; Á Cantareira, de tarde, quando chegavam as lanchas do peixe e se comprava a volumosa pescada de dorso preto, que as criadas traziam para casa em argola, com a ponta da cauda na boca, como o símbolo da imobilidade egípcia.
No paredão do quebra-mar sobressai da superfície plana da cantaria uma ponta de rocha negra, áspera, duramente recortada, como uma grande flor granítica. Essa rocha, em que eu me sentei em criança, com o meu chapéu de palha e o meu bibe cheirando ao algodão novo azul e branco da fábrica do Bolhão, reconheci-a com a mesma ternura saudosa com que se torna a ver um velho móvel de família. Boas pedras!
Ao longo da bela estrada da Foz a Leça rodam, listradas com longas faixas de cores vivas, as carruagens americanas, e no mastro da torre do farol, na Senhora da Luz, flutuam numa palpitação jubilosa os galhardetes triangulares com que se fala de terra para os navios. À beira da estrada as novas edificações destacam-se pitorescamente do fundo verde-negro dos pinhais que cobrem as colinas sobranceiras. Desde madrugada até às 10 ou 11 horas da manhã tomam-se banhos de mar em toda a linha da costa, desde a barra até ao molhe de Carreiros. É inumerável a quantidade de banhistas. As praias coalham-se de barracas de lona branca, de forma cúbica, deselegantes, abafadas, sem respeito pelo tecto, dando lugar a que se desenvolva dentro, com a reacção do banho, uma humidade morna, que me não parece inteiramente benéfica para os nervos da população balnear.
Sob o céu radioso, um vasto mar azul ondula, bate os rochedos da costa e inunda-os de espuma. Na atmosfera fresca, picante de sal, palpita o perfume das algas. Ao longe, no mar, negreja uma extensa linha, como a de um formigueiro, de pequenos barcos, à pesca do caranguejo. A areia da praia reluz polvilhada de sol. Cantando no ar como a frescura de uma alvorada ouve-se o pregão alegre, vibrante, alongado em toda a largura da pronúncia de uma rapariga minhota: - "Merca louça branca ou amarela, merca?" Abro bem a boca para me deixar embeber e penetrar da luminosa alegria do ar em que parece diluída uma poeira aquática, diáfana, de pérolas líquidas douradas pela luz. O pregão tão característico da louça branca ou amarela, que tantas vezes ouvi em pequeno na estação dos banhos neste mesmo sítio, transporta-me em espírito ao tempo passado, e sinto-me como num banho ideal de mocidade. Defronte da casa que habito, em Carreiros, fica o paredão do quebra-mar, destinado a fazer na costa um pequeno porto para abrigo das lanchas de pesca em dias de mau tempo e para o serviço das catraias que vão levar pilotos a bordo dos navios que demandam a barra.
Foz! Saudosa Foz! […] No tempo em que eu ia de chapéu de palha e de bibe, á tarde, apanhar conchinhas na costa, pela mão de minha avó, tu eras grave, simples, burgueza, recolhida e silenciosa como uma horta em pleno campo. Tinhas duas hospedarias: a do Julião, defronte do Castelo, e a do Silvestre, ao fundo da rua Direita. Em qualquer delas, o preço, com almoço de bifes e ovos, jantar e ceia, com lautas sobremesas de pudim de pão com passas, muita fruta e vinho à discrição, era de um pinto por dia. Porque tudo quanto era bom e caro, custava nesse tempo — um pinto. Além destas hospedarias havia o café da Senhora da Luz, a Assembleia do Mallen, á esquina da praia dos Ingleses; um barbeiro na rua Direita, que era veterano, tinha a figura de uma esfera, e exibia á porta do seu estabelecimento um pintassilgo dentro de uma gaiola cilindrica, que andava á roda, fazendo mexer engenhosamente um boneco e uma boneca que estavam dos lados, segurando uma manivela.
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