Rio Tejo
Almeida Garrett — Romanceiro, vol. III
Quem desce Tejo abaixo, por esta margem do Norte onde está Lisboa, e tendo saudado o precioso monumento de Belém, a sua torre não menos bela, entra no fashionável Pedrouços e daí segue às praias do Dafundo até à Cruz Quebrada, tem dado o mais bonito passeio que se pode dar nas vizinhanças da capital, e visitado os sítios que, depois de Sintra, mais frequenta a sociedade elegante da nossa terra. Do…
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Additional Excerpts
Muito discretamente Maria olhara para o rio. Ega fez então um gesto rápido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro». Carlos sossegou: e Ega voltou a falar dos inundados do Ribatejo e do sarau literário e artístico que em beneficio deles se «ia cometer» no salão da Trindade... Era
uma vasta solenidade oficial. Tenores do Parlamento, rouxinóis da literatura, pianistas ornados com o hábito de Sant'Iago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo «ia entrar em fogo». Os reis assistiam, já se teciam grinaldas de camélias para pendurar na sala. Ele, apesar de demagogo, fora convidado para ler um episódio das «Memórias de Um Átomo»: recusara-se, por modéstia, por não encontrar nas «Memórias» nada tão suficientemente palerma que agradasse à capital. Mas lembrara o Cruges; e o maestro ia ribombar ou arrulhar uma das suas «meditações». Além disso, havia
uma poesia social pelo Alencar. Enfim, tudo prenunciava uma imensa orgia...
- E a Sr.ª D. Maria - acrescentou ele - devia ir!... É sumamente pitoresco. Tinha Vossa Excelência ocasião de ver todo o Portugal romântico e liberal, "à la besogne", engravatado de branco, dando tudo que tem na alma!
- Com efeito devias ir - disse Carlos - rindo. Demais a mais se o Cruges toca, se o Alencar recita, é uma festa nossa...
- Pois está claro! - gritou Ega, procurando o monóculo, já excitado. - Há duas coisas que é necessário ver em Lisboa... Uma procissão do Senhor dos Passos e um sarau poético!
Rolavam então pelo Largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que parasse no começo da Rua do Alecrim: eles apeavam-se e tomavam de lá o americano para o Ramalhete.
Mas a tipóia estacou antes da calçada, rente ao passeio, em frente de uma loja de alfaiate. E nesse instante achava-se aí parado, calçando as suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas de apóstolo, todo vestido de luto. Ao ver Maria, que se inclinara à portinhola, o homem pareceu assombrado; depois, com uma leve cor na face larga e pálida, fitou gravemente o chapéu, um imenso chapéu de abas recurvas, à moda de 1830, carregado de crepe.
- Quem é? - perguntou Carlos.
- É o tio do Dâmaso, o Guimarães - disse Maria, que corara também. É, curioso, ele aqui!
Ah, sim! o famoso Mr. Guimarães, o do «Rappel», o íntimo de Gambeta! Carlos recordava-se de ter já encontrado aquele patriarca no Price com o Alencar. Cumprimentou-o também; o outro ergueu de novo com uma gravidade maior o seu sombrio chapéu de carbonário. Ega entalara vivamente o monóculo para examinar esse lendário tio do Dâmaso, que ajudava a governar a França: e depois de se despedirem de Maria, quando a caleche já subia a Rua do Alecrim e eles atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por aqueles modos, aquelas barbas austeras de revolucionário…
- Que bonito está o rio! - disse Luísa.
Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo:
- O Tejo!
Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam, um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim burguês; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de mármore, que se elevavam de entre os maciços e as moitas de dálias, pássaros pousavam.
Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas.
- Por causa dos suícidios! - acudiu logo o Conselheiro. E todavia, segundo a sua opinião, os suícidios em Lisboa diminuiam consideravelmente: atribuia isso à maneira severa e muito louvável com que a imprensa os condenava.
No seu quarto do Bragança abriu a varanda. E debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da noite de Maio, ante a majestade silenciosa do rio e da Lua, pensava regaladamente que nem teria a canseira de esmiuçar as crónicas e os fólios maçudos…
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