Jardim da Estrela

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrela, Carlos já esperava ao portão de ferro, numa impaciência, por causa do jantar na Toca. Enfiou logo para dentro atropelando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.

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Mas o Cruges apareceu enfim de chapéu alto, entalado numa sobrecasaca solene, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipóia estreita e dura. Carlos ia levá-los a casa do Dâmaso. E como queria ainda jantar nos Olivais, esperaria por eles, para saber o resultado «do chinfrin», no Jardim da Estrela, junto ao coreto.
Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapéu. - Quer tomar uma chávena de chá conosco, sr. Carlos da Maia? Eu vinha morrendo por uma chávena de chá... Que lindo dia, não é verdade? Rosa, fica tu a contar o nosso passeio enquanto eu vou tirar o chapéu... Carlos, só com Rosa, sentou-se junto dela, desviando-a do livro, tomando-lhe ambas as mãos. - Fomos ao Passeio da Estrela - dizia a pequena. Mas a mamã não se queria demorar, porque tu podias ter vindo! Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mãozinhas de Rosa. - E então que fizeste no Passeio? - perguntou ele, depois dum leve suspiro de felicidade que lhe fugira do peito. - Andei a correr, havia uns patinhos novos... - Bonitos?... A pequena encolheu os ombros: - Chinfrinzitos. Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa tão feia? Rosa sorriu. Fora o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas assim, engraçadas... Dizia que a Melanie era uma gaja... O Domingos tinha muita graça. Então Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com tão bonitos vestidos, não devia dizer aquelas palavras... Assim falava a gente rota. - O Domingos não anda roto - disse Rosa muito séria. E sùbitamente, com outra ideia, bateu as palmas, pulou-lhe entre os joelhos, radiante: - E trouxe-me uns grilos da praça! O Domingos trouxe-me uns grilos… Se tu soubesses! «Niniche» tem medo dos grilos! Parece incrível, hem? Eu nunca vi ninguém mais medrosa…
Então a condessa olhou o relógio. Eram cinco e meia, àquela hora ela já não recebia: podiam, enfim, conversar um momento, em boa camaradagem. E, o que houve, foi um silêncio lento, em que os olhos de ambos se encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no Passeio da Estrela.
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