Patriarcal Queimada
Eça de Queirós — O Primo Basílio
Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa foi encostar-se à vidraça.
O sol desaparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde sem vento; pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam abertas as varandas, onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha planta miserável, manjericão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancólico de um piano, a «Oração de Uma Virgem», to…
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Additional Excerpts
Três semanas depois, por uma tarde quente, com um céu triste de trovoada, e no momento em que estavam caindo algumas gotas grossas de chuva - Carlos apeava-se de um "coupé" de praça, que viera parar, devagar, à esquina da Patriarcal, com os estores verdes misteriosamente corridos. Dois
sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se desjeitosamente duma portinha suspeita. E com efeito a velha traquitana de rodas amarelas acabava de ser uma alcova de amor, perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro dela, pela estrada de Queluz,
com a senhora condessa de Gouvarinho.
A condessa tinha descido no Largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a solidão da Patriarcal para se desembaraçar do calhambeque de assento duro, onde durante a última hora sufocara, sem ousar descer as vidraças, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos
intermináveis que ela lhe dava na barba...
Até aí, durante essas três semanas, tinham-se encontrado numa casa da Rua de Santa Isabel, pertencente a uma tia da condessa que fora para o Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato.
O estanco ainda não se fechara, e a sua luzita lúgubre como a estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miúda da rua; as janelas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se dentro serões melancólicos; noutras, onde havia vultos imóveis, luzia às vezes a ponta dum cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do padeiro, no silêncio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.
Foi-se encostar à janela. Estava um dia muito azul, muito doce. O sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade aveludada. O Paula, em chinelas de tapete, aquecia-se à porta do estanco. […]
De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a esquina - e daí a pouco voltar com um galego, velho e pesado, que trazia o seu saco ao ombro.
Na rua, a estanqueira chegou-se à porta, vestida de luto, estendendo o seu carão viúvo, os braços cruzados sobre o xale tingido de preto, esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa do Azevedo, veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabelo esguedelhado em repas secas, a cara oleosa e enfarruscadas, com três pequenos meio nus, quase negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se erguia de cima dos olhos;
O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado: aqueles sons banais entravam-lhe agora na alma, com a brandura de um bafo quente e a melancolia de um gemido.
Ao crepúsculo, ao ver cair o dia, entristecia-se sem razão, caía numa vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, as cavatinas apaixonadas gemiam instintivamente no teclado, sob os seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços moles.
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