Largo das Necessidades

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Carlos não decidira fazer «exclusivamente» clínica: mas desejava decerto dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como prática. Então Vilaça sugeriu que o consultório estivesse separado do laboratório. - E a minha razão é esta: a vista de aparelhos, máquinas, coisas, faz esmorecer os doentes... - Tem você razão, Vilaça! - exclamou Afonso. Já meu pai dizia: poupe-se ao boi a vista do malho. … see more

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Ocupava-se então mais do laboratório, que decidira instalar no armazém, às Necessidades. Todas as manhãs, antes de almoço, ia visitar as obras. Entrava-se por um grande pátio, onde uma bela sombra cobria um poço, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos já decidira transformar aquele espaço em fresco jardinete inglês; e a porta do casarão encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada de ermida, fazendo um acesso venerável para o seu santuário de ciência. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; sempre um vago martelar preguiçoso numa poeira alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um carpinteiro esgrouviado e triste parecia estar ali, desde séculos, aplainando uma tábua eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os trabalhadores que andavam alargando a clarabóia, não cessavam de assobiar, no sol de inverno, alguma lamúria de fado.
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