Hotel Mondego

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Outros anos tranquilos passaram sobre Santa Olávia. Depois uma manhã de Julho, em Coimbra, Manuel Vilaça (agora administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Afonso se hospedara com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, berrando: - "Neminè! Neminè!" Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira, que tinha acompanhado os senhores de Santa Olávia, correu à… see more

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Possuía uma missão — e começou logo a passear pela Calçada, pensativo, com o gorro sobre os olhos, como quem anda reconstruindo um mundo. No acto desse ano levou o "R". Quando regressou das férias para o quarto ano já não refervia na Rua da Matemática o cenáculo ardente dos Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava em Vila Real de Santo António: com ele desaparecera a «Pátria» e os moços zelosos, que na Biblioteca esquadrinhavam as crónicas de Fernão Lopes e de Azurara, desamparados por aquele apóstolo que os levantava, recaíram nos romances de Georges Ohnet e retomaram à noite o taco nos bilhares da Sofia. Gonçalo voltava também mudado, de luto pelo pai, que morrera em Agosto, com a barba crescida, sempre afável e suave, porém mais grave, averso a ceias e a noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de gravata branca, um velho criado de Santa Ireneia, o Bento — e os seus companheiros preferidos foram três ou quatro rapazes que se preparavam para a Política, folheavam atentamente o «Diário das Câmaras», conheciam alguns enredos da Corte, proclamavam a necessidade duma «orientação positiva» e dum «largo fomento rural», consideravam como leviandade reles e jacobina a irreverência da Academia pelos Dogmas, e, mesmo passeando ao luar pelo Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam com ardor sobre os dois chefes de partido — o Brás Vitorino, o homem novo dos regeneradores, e o velho barão de S. Fulgêncio, chefe clássico dos históricos. Inclinado para os regeneradores, porque a Regeneração lhe representava tradicionalmente ideias de conservantismo de elegância culta e de generosidade, Gonçalo frequentou então o Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava à noite, tomando chá preto, «o fortalecimento da autoridade da Coroa», e «uma forte expansão colonial!» Depois, logo na Primavera, desmanchou alegremente esta gravidade política: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras.
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