Hipódromo de Belém
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
- Pois Vossa Excelência - continuou ele, cheio sùbitamente de loquacidade - perdeu, que as corridas estiveram esplêndidas... Nós ainda não nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estação... Pois não é verdade que estiveram muito chiques? Olhe, minha senhora, duma coisa pode
Vossa Excelência estar certa, é que hipódromo mais bonito não há lá fora. Uma vista até à barra, que é de…
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Additional Excerpts
Ega, no entanto, escrevia muito lentamente, com amor. E naquele silêncio, que o embaraçava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando até ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, bilhetes e fotografias. Eram as glórias sociais do Dâmaso, os documentos do «chique a valer»
que era a paixão da sua vida: bilhetes com títulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada no hipódromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey Club, de membro do Tiro aos Pombos: - até pedaços cortados de jornais anunciando os anos, as partidas, as chegadas do sr. Salcede, «um dos nossos mais distintos "sportmen"».
À entrada para o hipódromo, abertura escalavrada num muro de quintarola, o faetonte teve de parar atrás do "dog-cart" do homem gordo - que não podia também avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um polícia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockey Club, tinha-lhe dito que ele podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho dissera na véspera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O polícia bracejava, enfiado. E o cavalheiro, tirando as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem - quando, trotando na sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalheiro gordo, fez rodar para fora a caleche. Outro municipal intrometeu-se, brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E através do rebuliço, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, um realejo tocando a «Traviata».
O faetonte entrou - atrás do "dog-cart", onde o homem gordo, a estoirar de fúria, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal.
- Tudo isto está arranjado com decência - murmurou Craft.
Diante deles, o hipódromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de Junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem larga e
repousante chegava vagarosamente do rio.
No centro, como perdido no largo espaço verde, negrejava, no brilho do sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, de onde sobressaíam tons claros de sombrinhas, o faiscar dum vidro de lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para além, dos dois lados da tribuna real
forrada de um baetão vermelho de mesa de repartição, erguiam-se as duas tribunas públicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques de arraial. A da esquerda vazia, por pintar, mostrava à luz as fendas do tabuado. Na da direita, besuntada por fora de azul-claro, havia uma fila de senhoras
quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, dum tom alvadio de madeira, que abafava as cores alegres dos raros vestidos de Verão. Por vezes a brisa lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das bandeirolas. Um grande silêncio caía do céu faiscante.
Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia mais soldados de infantaria, com as baionetas lampejando ao sol. E no homem triste que estava à entrada, recebendo os bilhetes, metido dentro de um enorme colete branco, reteso de goma, e que lhe chegava até aos joelhos -
Carlos reconheceu o servente do seu laboratório.
No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu faetonte de oito molas, levando ao lado Craft, que durante os dois dias de corridas se instalara no Ramalhete, parou ao fim do Largo de Belém, no momento em que para o lado do hipódromo estavam já estalando foguetes. Um dos criados desceu a
comprar o bilhete de pesagem para o Craft, numa tosca guarita de madeira, armada ali de véspera, onde se mexia um homenzinho de grandes barbas grisalhas.
Era um dia já quente, azul-ferrete, com um desses rutilantes sóis de festa que inflamam as pedras da rua, doiram a poeirada baça do ar, põem fulgores de espelho pelas vidraças, dão a toda a cidade essa branca faiscação de cal, dum vivo monótono e implacável, que na lentidão das horas de Verão cansa a alma, e vagamente entristece. No Largo dos Jerónimos, silencioso, e a escaldar na luz, um ónibus esperava, desatrelado, junto ao portal da igreja. Um trabalhador com o filho ao colo, e a mulher ao lado no seu xale de ramagens, andava ali, pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gozar ociosamente o seu domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programas das corridas que ninguém comprava. A mulher da água fresca, sem fregueses, sentara-se com a sua bilha à sombra, a
catar um pequeno. Quatro pesados municipais a cavalo patrulhavam a passo aquela solidão. E a distância, sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia só homens, a gente do Grémio, das Secretarias e da Casa Havanesa; a maior parte à vontade, com jaquetões claros, e de chapéu côco; outros mais em estilo, de sobrecasaca e binóculo a tiracolo, pareciam embaraçados e quase arrependidos do seu
chique. Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraças de cigarro. Aqui e além um cavalheiro, parado, de mãos atrás das costas, pasmava languidamente para as senhoras. Ao lado de Carlos dois brasileiros queixavam-se do preço dos bilhetes, achando aquilo «uma sensaboria de
rachar.»
Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados: e junto à corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, com as carruagens pelo meio, sem um rumor, numa pasmaceira tristonha, sob o peso do sol de Junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava água fresca. Lá ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, tão azul como o céu, numa pulverização fina de luz.
E imediatamente aquela massa de gente oscilou, embateu contra o tabuado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chapéus pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da polícia; senhoras, com as saias apanhadas, fugiam através da pista, procurando esbaforidamente as carruagens - e um sopro grosseiro de desordem reles passava sobre o hipódromo, desmanchando a linha postiça de civilização e a atitude forçada de decoro…
[…]
O marquês, num grupo a que se juntara o Cliford, Craft, e Taveira, continuava a vociferar:
- Então, estão convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto é um país que só suporta hortas e arraiais... Corridas, como muitas outras coisas civilizadas lá de fora, necessitam primeiro gente educada. No fundo todos nós somos fadistas! Do que gostamos é de vinhaça, e viola, e bordoada, e viva lá seu compadre! Aí está o que é!
Ao lado dele, Cliford, que no meio daquele desmancho todo esticava mais correctamente a sua linha de "gentleman", mordia um sorriso, assegurando, com um ar de consolação, que conflitos iguais sucedem em toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquilo ignóbil. Dizia-se mesmo que ele ia retirar a «Mist». E alguns davam-lhe razão. Que diabo! Era aviltante para um belo animal de raça correr num hipódromo sem ordem e sem decência, onde a todo o momento podiam reluzir navalhas.
[…] Apenas o finlandês se afastou lânguidamente - ela [condessa], muito tranquila, ali mesmo junto de D. Maria, falando em inglês, e apontando para a pista como se comentasse os cavalos do Darque, explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em lugar de partir na terça-feira para o Porto - ia na segunda à noite, só com a criada escocesa, sua confidente, num compartimento reservado. Carlos tomava o mesmo comboio. Em Santarém, desciam ambos, muito simplesmente, e iam passar a noite ao hotel. No dia seguinte ela seguia para o Porto, ele recolhia a Lisboa...
Carlos abria os olhos para ela, assombrado, emudecido. Não esperava aquela extravagância. Supusera que ela o queria no Porto, escondido no Francfort, para passeios românticos à Foz, ou visita furtivas a algum casebre da Aguardente... Mas a ideia duma noite, num hotel, em Santarém!
Terminou por encolher os ombros, indignado. Como queria ela, numa linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente conhecida, apear-se com ele na estação de Santarém, dar-lhe o braço, maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ela, porém, pensara em todos os detalhes. Ninguém a conheceria, disfarçada num grande "water-proof", e com uma cabeleira postiça.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruçadas no rebordo, numa fila muda, olhando vagamente, como de uma janela em dia de procissão, estavam ali todas as senhoras que vêm no "high-life" dos jornais, as dos camarotes de S. Carlos, as das terças-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos sérios de missa. Aqui e além um desses grandes chapéus emplumados à Gainsborough, que então se começavam a usar, carregava duma sombra maior o tom trigueiro duma carinha miúda. E na luz franca da tarde, no grande ar da colina descoberta, as peles apareciam murchas, gastas,
moles, com um baço de pó de arroz.
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