Santa Maria de Cárquere
Eça de Queirós — A Ilustre Casa de Ramires
Só retomou um passo indiferente ao acercar da linha do caminho-de-ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam diante da cancela, que se fechara para a lenta passagem de um trem carregado de pipas. Um desses homens, de alforge aos ombros, era o mendigo — o vistoso mendigo que passeava por aquelas aldeias a rendosa majestade das suas barbas de deus fluvial. […]
E com efeito ao cabo do pinh…
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Additional Excerpts
Caminhavam então junto à ponte da Portela, onde os campos se alargam, e da estrada se avista Vila Clara, que a lua branqueava toda, desde o Convento de Santa Teresa, rente ao chafariz, até ao muro novo do cemitério, no alto, com os seus finos ciprestes. Para o fundo do vale, clara também no lugar, era a igrejinha de Craquede, Santa Maria de Craquede, resto do antigo mosteiro em que ainda jaziam, nos seus rudes túmulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires afonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado naquele silêncio e suavidade saudosa, cantava, num gemer surdo de bordões:
"Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto fora,
E não me verás nunca mais!..."
O trintanário da "Feitosa", ao enxergar o Fidalgo, saltou risonhamente da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a égua. E Gonçalo, que desde pequeno não penetrava nas ruínas de Craquede, seguia por um carreirinho cortado na relva, atentamente, encantado com aquela romântica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do portal, apareceram as duas senhoras voltando do velho claustro.
Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio; torneou a branca escadaria da Igreja de S. Bento; meteu, alheado e sem reparar, pela estrada plantada de acácias que conduz ao cemitério. E naquele alto da vila, donde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a largueza rica dos campos desde Valverde a Craquede — sentiu que também na sua vida, apertada e solitária como a Calçadinha, se alargara um arejado espaço cheio de interessante bulício e de abundância.
E para conversar de Gonçalo, da espera em Craquede, acompanhou aqueles senhores até à ponte da Portela. João Gouveia manquejava, aperrado por umas infames botas novas que nessa manhã estreara. E descansaram um momento no belo banco de pedra que o pai de Gonçalo mandara colocar, quando governador civil de Oliveira. Era esse o doce sítio donde se avista Vila Clara, tão asseada, sempre tão branca, àquela hora toda rosada, desde o vasto Convento de Santa Teresa até ao muro novo do cemitério no alto, com os seus finos ciprestes.
Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o Sol descia, vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens, acendendo ainda, em ouro coruscante, as janelas da vila.
Ao fundo do vale, uma claridade nimbava as altas ruínas de Santa Maria de Craquede, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda pássaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos álamos que escondiam o casarão, a velha Torre, mais velha que a vila e que as ruínas do mosteiro, e que todos os casais espalhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no voo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planície e o Sol sobre o mar, como em cada tarde, desses mil anos, desde o conde Ordonho Mendes.
Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vacas lentas. Do lado da vila, o padre José Vicente, da Finta, trotou na sua égua branca, saudou o Sr. Administrador, o amigo Soeiro, abençoando também a chegada do Fidalgo, pra quem já preparara uma bela cesta da sua uva moscatel. Três caçadores, com uma matilha de coelheiros, atravessaram a estrada, descendo pelo portelo à quelha que contorna o casal do Miranda.
Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se descesse do céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparência do ar de setembro. Os fumos das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, de entre a telha rala. Na loja do João ferreiro, adiante da Portela, o clarão da forja avivou, mais vermelho. Um "bum-bum" de tambor bateu festivamente para o lado dos Bravais, cresceu apressado, marchando: nalgum cabeço, depois lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no vale mais fundo.
Imediatamente Sanches Lucena, receoso, puxara da algibeira um espesso lenço de seda branca para abafar o pescoço. E, receoso também pela parelha, logo se arrancou pesadamente do banco de pedra, com um aceno cansado ao trintanário, para apanhar o xaile, avisar o cocheiro. Mas ainda atravessou, vergado e arrimado à bengala, para o parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte, dominando o vale. E confessava a Gonçalo que aquele era, nos arredores da "Feitosa" o seu passeio preferido. Não só pela beleza do sítio, já cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»; — mas porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado no banco, avistava numa largueza terras suas.
— Olhe V. Ex.ª… Para além daquele souto, até à chã e ao cômoro onde está a casota amarela, e por trás o pinhal, tudo é meu… O pinhal ainda é meu… Acolá, do renque de álamos para diante, depois do lameiro, é também meu… Ali, do lado da ermida, pertence ao Monte-Agra… Mas, mais para lá, passando o azinhal, pelo monte acima, é tudo meu!
O lívido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira preta, cresciam por sobre o vale. — Além os pastos… Adiante os centeios… Depois o bravio… — Tudo dele! E, por trás da magra figura alquebrada, de chapéu enterrado na nuca, o abafo de seda subindo até às pálidas orelhas quase despegadas, D. Ana, esvelta, clara e sã como um mármore, com um sorrido esquecido nos lábios gulosos, o formoso peito mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa, afincava a luneta sobre os pastos, e os pinhais, e os centeios, sentindo já — tudo dela!
— E agora acolá, detrás do olival, concluiu Sanches Lucena com respeito, é sítio seu, Sr. Gonçalo Mendes Ramires…
— Meu?...
— De V. Ex.ª, quero dizer, ligado à casa de V. Ex.ª. Pois não conhece?... Além, por trás do moinho, passa a estrada de Santa Maria de Craquede. São os túmulos dos seus antepassados….
Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina, sobre o monte das Oliveiras, à porta da sua tenda, diante dos barões que o aclamavam com as espadas nuas, recusando o ducado de Galileia, e o senhorio das terras de além-Jordão. — Que não podia, em verdade, aceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galileia…
"Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!"
— Boa piada! Murmurou Gonçalo.
Videirinha, entusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada nessa semana — a do saimento de Aldonça Ramires, Santa Aldonça, trazida do mosteiro de Arouca ao solar de Treixedo, sobre o almadraque em que morrera, aos ombros de quatro reis!
— Bravo! Gritou o Fidalgo pendurado na varanda. Essa é famosa, ó Videirinha! Mas aí há reis de mais… Quatro reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante da farmácia lançou outra, já antiga — a daquele terrível Lopo Ramires que, morto, se erguera da sua campa no mosteiro de Craquede, montara um ginete morto, e toda a noite galopara através de Espanha para se bater nas Navas de Tolosa! Pigarreou — e, mais chorosamente, atacou a do "Descabeçado":
"Lá passa a negra figura…"
Mas Gonçalo, que abominava aquela lenda, a silenciosa figura degolada, errando por noites de Inverno entre as ameias da Torre com a cabeça nas mãos, desceu da varanda, deteve a crónica imensa:
— Toca a deitar, ó Videirinha, hem? Passa das três horas, é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam cá na Torre, no domingo. Apareça também, com o violão e cantiga nova; mas menos sinistra… "Bona sera!" Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala — a "sala velha", toda revestida desses denegridos e tristonhos retratos de Ramires que ele desde pequeno chamava "as carantonhas dos vovós". E, atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silêncio dos campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
"Ai! Lá na grande batalha…
El-Rei Dom Sebastião…
O mais moço dos Ramires
Que era pajem do guião…"
Os três amigos retomaram o caminho de Vila Clara. No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas avé-marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.
Depois em cima, no imenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletó na aragem mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a província, e de possuir sobre ela uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua Torre, mais que a província e que o reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até ao miradouro, a que um candeeiro de petróleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente à fresta, estragava o entorno feudal. No céu macio, mas levente enevoado, raras estrelas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e no silêncio, por vezes além, para o lado dos Bravais, lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarelado e fumarento, caminhando mais longe, estestando para a Finta, era decerto um rancho com archotes festivos. Na alta igreja da Veleda tremeluzia uma iluminação vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do mosteiro, em Santa Maria de Craquede. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguesias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silêncio e sombra.
Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros malmequeres e botões-de-ouro que o sol de Agosto poupara. Um aromazinho fino, de algum jasmineiro emaranhado na hera, errava, adocicava a serena tarde. E na rama de um álamo, defronte do portão da capela, duas vezes um melro cantara. Gonçalo sacudiu todo o banco cuidadosamente, com o lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou também a frescura, o recolhimento daquele cantinho de Craquede.
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