Partiram às nove horas, numa caleche descoberta: levavam a Concha
e a Carmen. Melchior que parecia entusiasmado, mandara o Teso bater
pelo Chiado e direito no assento, com o chapéu ao lado, o charuto
flamejante, atirava adeuses com a ponta dos dedos para os grupos
escuros da Havanesa e do Baltreschi. Artur, um pouco embaraçado,
encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez m…
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Partiram às nove horas, numa caleche descoberta: levavam a Concha
e a Carmen. Melchior que parecia entusiasmado, mandara o Teso bater
pelo Chiado e direito no assento, com o chapéu ao lado, o charuto
flamejante, atirava adeuses com a ponta dos dedos para os grupos
escuros da Havanesa e do Baltreschi. Artur, um pouco embaraçado,
encolhido, admirava a Concha: a mantilha preta dava uma palidez mais
mimosa, mais tocante, ao seu rosto de feições finas, de um tom
melancólico; os seus olhos árabes, húmidos, bem rasgados, tinham na
sombra uma negrura mais profunda; recostava-se com um abandono
lânguido mas senhoril, retraindo castamente os pezinhos para não
encontrar as botas de Artur. Logo no Aterro, Melchior começou com as
suas pilhérias: fazia declarações inflamadas à Carmen — uma grossa
andaluza, de grandes carnes e olhos banhados num fluido negro como
tinta — beijocava-lhe as mãos papudas, chamava-lhe num espanhol
grotesco: mi palomba, flor de benediccion!... remexia-lhe no vestido,
atraía-a pelos braços, fazendo-a rir, de um riso cálido de cócegas e de
pândega. Para lhe imitar a animação, Artur quis tomar desajeitadamente
as mãos da Concha, mas ela, com dignidade, censurando decerto as
expansões públicas de concupiscência, retirou-as brandamente. Aquela
frieza chocou Artur: desesperava-se por não poder falar espanhol e
cativá-la com a eloquência da fraseologia poética. Então recostou-se,
calado, a olhar a noite: uma doçura infinita errava no ar que tinha uma
vaga cor de anil deslavado; brancuras de luar banhavam pedaços de
fachadas; e a tipóia corria a trote, com o Teso muito direito na almofada,
de cabeça baixa, o pingalim alto, as pontas da faixa a esvoaçar, batendo
no seu estilo catita.
— Então isto não é melhor que todas as soirées do High-Life? —
disse Melchior. – E em passando as portas, salta a bela malagueña!
E aconselhava Artur a que se atirasse à Concha e «que se pusesse à
altura das circunstâncias», que isto de pândega sem animação era
dinheiro deitado à rua!
— Eh, Teso, é bater! é bater!
Tinham passado Pedrouços, adormecido e escuro, e a Carmen, muito
solicitada, entoou a sua malagueña: Melchior, mascando o charuto com
entusiasmo, seguia o compasso, saracoteando a cintura e fazia o
acompanhamento, batendo as mãos em cadência. A voz da rapariga era
acre e mordente e as notas arrastadas, os á-á-áhs muito modulados,
perdiam-se pela noite, misturados ao trotar batido das ferraduras, ao
rodar da tipóia no areado do macadame. No alto silêncio azulado
brilhava uma Lua imóvel, muito serena, e um ar vivo passava, salgado
das emanações do rio. Artur sentiu um fluxo de ternura triste, de enleio
poético afogar-lhe o peito e recostando a cabeça, suspirou.
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