Circo Price
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
A baronesa teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se extremamente sério: pertencia à Sociedade de Geografia, considerava-a um pilar do Estado, acreditava na sua missão civilizadora, detestava aquelas irreverências. Mas a condessa e Carlos tinham rido também: - e de repente a
frialdade que até aí os conservara ao lado um do outro reservados, numa cerimónia afectada, pareceu dissipar-se ao…
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Additional Excerpts
Tinham chegado ao Price. Uma multidão de domingo, alegre e pasmada, apinhava-se até às ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros do palhaço, rebocado de caio e vermelhão, que tocava nos pèzinhos duma "voltigeuse" e lambia os dedos, de olhos em alvo, num gosto de mel... Descansando na sela larga de xairel dourado, a criatura, magrinha e séria, com flores nas tranças, dava a volta devagar, ao passo dum cavalo branco, que mordia o freio, levado à mão por um estribeiro; e pela arena o palhaço lambão e néscio acompanhava-a, com as mãos ambas apertadas ao coração, numa súplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de calça listrada de ouro, empurrava-o, num arremedo de ciúmes; e o palhaço caía, estatelado, com um estoiro de nádegas, entre os risos das crianças e os ratatãs da charanga. O calor sufocava; e as fumaraças de charuto, subindo sem cessar, faziam uma névoa onde tremiam as chamas largas do gás.
Carlos, incomodado, abalou.
- Espera ao menos para ver a mulher dos crocodilos! - gritou ainda o Taveira.
- Não posso, cheira mal, morro!
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