Oliveira de Azeméis
Eça de Queirós — A Capital!
Cristina […] levava-o a ver «a sua família»: os coelhos pulavam sobre as camadas de couves meladas mal a viam, de nariz franzido e orelhões direitos, fitando os olhinhos vermelhos como rubis ou negros como vidrilhos nas côdeas que ela trazia: e era em torno dela um correr de pintainhos redondos como bolas de penugem, um koé-koé de patos, um despedir de bufos dos dois perus entufados. Mas o cheiro …
see more
Additional Excerpts
Abafava, abriu a janela. Uma esplêndida noite de Julho enchia o espaço, estrelas sem fim rebrilhavam: como sempre os quintais, as hortas dormiam - mas Artur não os achou lúgubres; daquela natureza estendida em baixo parecia sair a respiração dum ser consciente adormecido; um cheiro morno subia das telhas escaldadas e das folhagens muito saturadas de sol; no bafo espesso, cheio da ardência do dia tórrido, a evaporação dos tanques fazia passar hálitos frescos; pelo pomar ao lado, a água da rega murmurava na sombra, docemente; e errava um aroma de clematites e de flores dos feijoais.
- Que bela noite! disse alto.
Ergueu os olhos, esquecido dos seus desejos, enlevado para aquele céu rico de Verão: era como uma forte poeirada de luz, suspensa e imóvel, muito alta no espaço, com grãos grossos que faiscavam numa pulsação febril, outros fixos num brilho de serenidade eterna. Desejou saber o nome de certas estrelas: desejou habitá-las: e ia seguindo comovido a Via Láctea, a sua névoa luminosa com tons de prata antiga, feitos de átomos de sóis. Então, diante daquelas profundidades, enterneceu-se religiosamente: sentiu-se muito puro, muito elevado: necessidades de fé e de sacrifício passaram-lhe na alma: pensou em Deus, num amor santo e imortal, em livros vagos que escreveria consolando os infelizes, derramando paz... Foi a hora mais nobre da sua vida.
O dia estava adorável, e um bom sol quente dava um brilho vigoroso à folhagem das árvores, que tinha o verde da Primavera: a torre da igreja, muito aguçada, branquejava sobre o azul: e dum pombal próximo, pombas tomavam o voo, espalhavam-se pelos quintais.
Maquinalmente, Artur seguia-as, interessava-se um momento pelos lugares onde elas pousavam os seus pés cor-de-rosa: um muro branco com trepadeiras; uma latada onde uma vinha ia reverdejar; a pedra dum tanque onde a água tinha espelhados e sombras. Havia um vago rumor, lento, dormente, feito do lento remexer das folhagens, de água a correr duma torneira, do pipiar vago de pássaros: um aroma de alfazema subia por instantes nos movimentos do ar: e tudo era sereno, doce, calmo, como para pacificar a existência agitada. […] Precisava descanso, a santa influência dum lugar recolhido. Oliveira servia-lhe, ali ficaria.
Deitou-se desesperado, pensando no que faria, para fugir bem depressa daquela casa embrutecedora, onde nem poderia ler de noite, na cama, ou trabalhar, - sem que uma das velhas viesse na sua ronda, fazer-lhe soprar a luz, e as imaginações.
Ao outro dia, ao erguer-se abriu a janela. Era uma manhã resplandecente. Em baixo, era toda uma verdura de pomares e hortas, com tanques aqui, além, onde se espelhava a água, brancura de roupa a secar, casas caiadas faiscando ao sol; o quintal das tias era cercado de muro baixo erriçado de fundos de garrafa, com três degraus de pedra, que subiam do pátio da criação: estava plantado de couves, saladas, feijões: pés de roseira e dálias faziam um jardinete ao canto, e no fundo, sob árvores, era o poço: e sobre um pedestal, uma estatueta de gesso da Fortuna, com o pé no ar, a cornucópia alta, branquejava na luz forte.
No nearby points found
No other points of interest found within 10km
×