Rua do Alecrim

Eça de Queirós — O Primo Basílio
Ao descer a Rua do Alecrim, Basílio viu o visconde Reinaldo à porta do Hotel Street. Mandou parar o Pintéus, e saltou do "coupé" […] E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava glorioso; um friozinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado de sol, as casas, os galhos das árvores, os mastros das faluas, as mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os… see more

Additional Excerpts

Nessa tarde, às seis horas, Carlos, ao descer a Rua do Alecrim para o Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bricabraque do tio Abraão. Entrou. O velho judeu, que estava mostrando a Craft uma falsa faiança do Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
E às duas horas, dentro duma tipóia, para que o macadame regado me não maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havanesa, pálido, perfumado, comovido, com uma tremenda rosa de chá na lapela. Éramos assim em 1867! Marcos Vidigal já me esperava, impaciente, roendo o charuto. Saltou para a tipóia; e batemos através do Loreto, que escaldava ao sol de Agosto. Na Rua do Alecrim (para combater a pueril emoção que me enleava), perguntei ao meu companheior quando publicaria Fradique as «Lapidárias». Por entre o barulho das rodas, Vidigal gritou: - Nunca!
- E esse Palma - acrescentou ele - é um traste! Eu conheço-o; ele teve uma espécie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na Rua do Alecrim. Foi uma história curiosa... Ora eu ta conto, Carlos... Aquele canalha! quando me lembro!... Aquela vil bolinha de matéria pútrida!... Aquele chouricinho de pus!
O chuveiro parara, um bocado de azul lavado apareceu entre nuvens. E Carlos descia a Rua de S. Roque - quando encontrou o marquês, saindo duma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mão, e o pescoço abafado num enorme "cache-nez" de seda branca. - Que é isso? Constipação? - perguntou Carlos. - Tudo - disse o marquês, pondo-se a caminhar ao lado dele com uma lentidão de moribundo. - Deitei-me tarde. Cansaço. Opressão no peito. Pigarreira. Dores no lado. Um horror... Levo já aqui rebuçados. - Não seja piegas, homem! Você o que precisa é rosbife e uma garrafa de Borgonha... Não é hoje que você janta lá no Ramalhete?... É, até tem lá o Craft e o Dâmaso... Então descemos por essa Rua do Alecrim, que já não chove, depois pelo Aterro fora, a passo ginástico, e em chegando lá você está curado. […] - Em todo o caso - disse ele, tirando cautelosamente o chapéu ao passar pela porta aberta da Igreja dos Mártires, deixe-me você ir primeiro ao Grémio... Quero escrever à Manueleta que não conte comigo esta noite... Depois, distraída e melancolicamente, perguntou notícias desse devasso do Ega. Esse devasso do Ega lá estava em Celorico, na quinta materna, ouvindo arrotar o padre Serafim, e refugiando-se, segundo dizia, na grande arte: andava a compor uma comédia em cinco actos, que se devia chamar «O Lodaçal» - escrita para se vingar de Lisboa. - O pior - murmurou o marquês, depois de um silêncio, e abafando-se mais no "cache-nez" - é se eu estou assim no domingo para as corridas! - O quê! - exclamou Carlos. - Então as corridas são já no domingo? O marquês foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as corridas se tinham apressado a pedido do Cliford, o grande "sportman" de Córdova, que devia trazer dois cavalos ingleses... Era um bocado humilhante depender do Cliford. Mas enfim o Cliford era um "gentleman", e com os seus cavalos de raça, os seus jóqueis ingleses, constituía a única feição séria do hipódromo de Belém. Sem o Cliford aquilo era uma brincadeira de pilecas e de "abas"… - Você não conhece o Cliford?... Belo rapaz! Um pouco "poseur", mas oiro de lei. Tinham entrado no pátio do Grémio, o marquês estendeu o braço a Carlos. - Veja esse pulso! - O pulso está excelente... Vá você dar lá esse golpe à Manuela, que eu fico aqui à espera.
Chegara ao fim da Rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vitória a passo. Era a segunda vez que o diplomata fazia exercício depois do seu desgraçado ataque de entranhas. Mas não tinha já vestígios da doença: vinha todo rosado e loiro, muito sólido na sua sobrecasaca, e com uma bela rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «mais forrte». […] Depois, travando do braço a Carlos, aludiu comovido ao oferecimento de Afonso da Maia, que pusera à sua disposição Santa Olávia, para ele se restabelecer nesses ares fortes e limpos do Douro. Oh esse convite tocara-o "au plus profond de son coeur". Mas, infelizmente, Santa Olávia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Sintra, de onde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e aí recomeçou logo, naquela comunidade de gostos que os começava a ligar, a conversa da Rua do Alecrim sobre a bela colecção dos Olivais. Craft dava detalhes; a coisa rica e rara que tinha era um armário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas…
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