Rua da Prata
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
Começou por uma contrariedade. Vilaça já saíra: e a criada não sabia bem se ele fora para o escritório, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega largou para o escritório, na Rua da Prata. O sr. Vilaça ainda não viera...
- E a que horas virá?
O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o colete uma corrente de coral, balbuciou que o sr. Vilaça não devia tardar, se não tivesse atravess…
see more
Additional Excerpts
Os meses passaram, depois os anos. A firma Alves & C.ª crescia, enriquecia. O escritório, agora mais largo, mais luxuoso, com seis caixeiros, era à esquina da Rua da Prata.
Godofredo estava mais calvo. Ludovina engordava. Tinham carruagem e no Verão iam a Sintra.
Depois, Machado casou outra vez, com uma viúva - casamento inexplicável, porque a viúva nem era bonita, nem era rica; tinha apenas uns olhos extraordinários, muito negros, muito pestanudos, muito quebrados, a expiar de langor.
Foi um casamento à capucha e os noivos partiram para Paris.
Voltaram. Vieram viver para perto dos Alves que, agora, tinham mudado para um palacete a Buenos Aires - e outra grande amizade nasceu logo entre Ludovina e a senhora dos olhos langorosos.
Vilaça ergueu-se imediatamente. Ergueu-se com a pressa de um galucho tímido que é rendido num posto arriscado, pediu licença, se não precisavam dele, para voltar ao escritório. Os amigos decerto preferiam conversar mais livremente. De resto, ali ficaram os papéis da sr.ª D. Maria Monforte. E se ele
fosse necessário, um recado encontrava-o na Rua da Prata ou em casa…
[…]
Ega, sentado no sofá, começou por contar o encontro com o sr. Guimarães, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter falado o Rufino. O homem queria explicações sobre a carta do Dâmaso, sobre a
bebedeira hereditária... Tudo se aclarara, ficando daí entre eles um começo de familiaridade…
×