Hotel Lawrence
Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
[…] Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
- A Lawrence onde é? Na serra? - perguntou ele com a ideia repentina de ficar ali um mês naquele paraíso.
- Nós não vamos para a Lawrence - disse Carlos, saindo bruscamente do seu silêncio, e espertando os cavalos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor!
Era uma ideia que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas de S. Pedro, e o…
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Additional Excerpts
Carlos ainda tentou envolvê-lo na alegria da mesa - contando a ida a Sintra, quando ele procurava Maria na Lawrence, e em vez dela achara uma matrona obesa, de bigode, de cãozinho ao colo, ralhando
com o homem em espanhol. Mas a cada exclamação de Carlos - «Lembras-te, Cruges?», «Não é verdade, Cruges?» - o maestro, rubro, grunhia apenas um sim avaro.
Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.
- Tem o ar mais simpático - disse o maestro. - Mas valeu muito a pena ir para o Nunes, só para ver aquela cena... E então com quê o Sr. Carlos da Maia tem experiência de espanholas?
Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar. À porta, dois rapazes ingleses, ambos de "knicker-bokers", cachimbavam em silêncio; e defronte, sentados sobre um banco de pedra, dois burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancólico, saindo do silêncio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas recordações, quase certo de Dâmaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes tocava flauta...
- Isto é sublime! - exclamou do lado o Cruges, comovido.
Parara diante da grade de onde se domina o vale. E dali olhava, enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro. E nesta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que o interessava, branquejando, afogada entre a folhagem, com um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma ideia de artista: desejou habitá-la com uma mulher, um piano e um cão da terra-nova.
Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos deliciosos:
- Que ar! Isto dá saúde, menino! Isto faz reviver!...
Para o gozar mais docemente, sentou-se adiante, num bocado de muro baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas árvores assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o relógio, as horas que fugiam para ir ver o palácio, a Pena, as outras belezas de Sintra - o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo correr a água, a ver monumentos caturras...
- Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...
E, naquela satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a sua chalaça:
- E Vossa Excelência deve sabê-lo, sr. Maia, porque tem experiência de espanholas!...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos nessa noite não se interessava, jogando distraído, a cantarolar também baixo bocados tristes da «Balada»: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e ele estava comprando
interminàvelmente as que restavam, voltou-se para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Sintra, estava aberto todo o ano...
- A ida do Dâmaso para Sintra deu-te no goto - rosnou Taveira impaciente. - Anda, joga!
[…]
- Dize cá, Cruges - perguntou-lhe Carlos - queres vir amanhã a Sintra?
O teclado calou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Carlos nem o deixou falar.
- Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Sintra... Amanhã lá estou à porta, com o "break". Mete sempre uma camisa numa maleta, que talvez passemos lá a noite… Às oito em ponto, hem?... E não digas nada lá dentro.
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