Sintra

Eça de Queirós — Os Maias: Episódios da Vida Romântica
No Verão, Pedro partiu para Sintra; Afonso soube que os Monfortes tinham lá alugado uma casa. […] Daí a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavalos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um… see more

Additional Excerpts

Ao tempo que estes juízos dos publicistas eram impressos e mandados à posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Sintra, cuidando em alugar e trastejar com elegância britânica uma casa, entre moitas de arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para repousar-se em fresca sesta a Aurora. Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e afestoadas as paredes exteriormente com lilases e jasmineiros, baunilhas e heras de verdejante urdidura, entrou naquela casa D. Ifigénia, conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte honesto e recomendável, que vinha a ser aquela D. Tomásia Leonor, em honra de quem as musas do defunto tenente suspiraram acrósticos. Mais atrás, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira cor de pombo, com gola e canhões escarlates golpeados de listas amarelas, distintivos da libré dos Ponces de Leão de Espanha. Ifigénia foi surpreendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de graciosas estantes e "étageres", cheias de livros luxuosamente encadernados, acondicionados com tão elegante simetria que induziam muito mais à contemplação que à leitura. O restante daquela vivenda de fadas era por igual magnífico, em gosto e riqueza.
Nesse momento em baixo, na calçada, uma carruagem, a trote largo, estacou. Carlos, surpreendido, correu à janela com o guardanapo na mão. - É o Ega! - exclamou. - É aquele velhaco que chega de Sintra! Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pé, ambos se olharam, hesitando... Mas o Ega era como um irmão de Carlos. Ele esperava só que o Ega recolhesse de Sintra para o levar à Toca. Melhor seria que o encontro se desse ali, natural, franco e simples... - Baptista! - gritou Carlos, sem vacilar mais. - Dize ao sr. Ega que estou a jantar, que entre para aqui. Maria sentara-se, vermelha, dando um jeito rápido aos ganchos do cabelo, arranjado à pressa, um pouco desmanchado. A porta abriu-se - e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapéu branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mão. - Maria - disse Carlos - aqui tens enfim o meu grande amigo Ega. E ao Ega disse simplesmente: - Maria Eduarda. Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mão que Maria Eduarda lhe estendia, corada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, desfez-se; e uma provisão fresca de queijadas de Sintra rolou, esmagando-se, sobre as flores do tapete. Então todo o embaraço findou através duma risada alegre - enquanto o Ega, desolado, abria os braços sobre as ruínas do seu doce. - Tu já jantaste? - perguntou Carlos. Não, não tinha jantado. E via já ali uns ovos moles nacionais, que o encantavam, enfastiado como vinha da horrível cozinha do Victor. Oh, que cozinha! Pratos lúgubres, traduzidos do francês em calão, como as comédias do Ginásio!
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a Terra, e que não encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria a Sintra. Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ela tivesse já partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar nela assim por aquela estrada fora, penetrar, com essa doçura no coração, sob as belas árvores de Sintra... Depois, era possível que daí a pouco, na velha Lawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ela lá estivesse, decerto viria jantar à sala, aquela sala que ele conhecia tão bem, que já lhe estava apetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos toscos sobre a mesa, e os dois grandes candeeiros de latão antigo... Ela entraria ali, com o seu belo ar claro de Diana loira; o bom Dâmaso, apresentaria o seu amigo Maia; aqueles olhos negros que ele vira passar de longe como duas estrelas, pousariam mais de vagar nos seus; e, muito simplesmente, à inglesa, ela estender-lhe-ia a mão…
Ficaram calados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e árvores, sufocando-se numa prodigalidade de bosque silvestre, deixando apenas espaço para um tanquezinho redondo, onde uma pouca de água, imóvel e gelada, com dois ou três nenúfares, se esverdinhava sob a sombra daquela ramaria profusa. Aqui e além, entre a bela desordem da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguês, uma volta de ruazita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso. Noutros recantos, aquele jardim de gente rica, exposto às vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloés e cactos, braços aguarda-solados de araucárias erguendo-se de entre as agulhas negras dos pinheiros bravos, lâminas de palmeira, com o seu ar triste de planta exilada, roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de cor-de-rosa. A espaços, com uma graça discreta, branquejava um grande pé de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitária na sua haste, palpitavam borboletas aos pares. - Que pena que isto não pertença a um artista! - murmurou o maestro. - Só um artista saberia amar estas flores, estas árvores, estes rumores... Carlos sorriu. Os artistas, dizia ele, só amam na natureza os efeitos de linha e cor; para se interessar pelo bem-estar de uma túlipa, para cuidar de que um craveiro não sofra sede, para sentir mágoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentões das acácias - para isso só o burguês, o burguês que todas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nas árvores e nas plantas uma outra família muda, por que ele é também responsável... Cruges, que escutara distraidamente, exclamou: - Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!
[…] Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a véspera lhe ficara nos lábios. - Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de ir a Sintra? Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart, e pelas fugas de Bach? Pois bem, a ideia era vir a Sintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguém! E acrescentou, rindo: - Deixa-te levar, que não te hás-de arrepender... Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Sintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e de nascentes de águas vivas... E terminou por confessar que desde os nove anos não voltara a Sintra. O quê! o maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores, barquejar na Várzea... - A mim o que me está a apetecer muito é Seteais; e a manteiga fresca. - Sim, muita manteiga - disse Carlos. - E burros, muitos burros... Enfim, uma écloga!
Chegavam às primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. E a passo, o "break" foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de Verão…
Recebera duas cartas dele [de Ega], falando quase somente do Dâmaso. O Dâmaso aparecia em toda a parte com a Cohen; o Dâmaso tornara-se grotesco em Sintra, numa corrida de burros; o Dâmaso arvorara capacete e véu em Seteais; o Dâmaso era uma besta imunda; o Dâmaso, no pátio do Vítor, de perna traçada, dizia familiarmente «a Rachel»; era um dever de moralidade pública dar bengaladas no Dâmaso!...
- Em Sintra há lindas flores - murmurou por fim. - Oh, Sintra é um encanto! - disse ela, sem erguer os olhos do seu ramo. Vale a pena vir a Portugal só por causa de Sintra.
[…] Partiram. Sintra ficava dormindo ao luar. Algum tempo o "break" rodou em silêncio, na beleza da noite. A espaços, a estrada aparecia banhada duma claridade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam, de entre as árvores com um ar de melancolia romântica. Murmúrios de águas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estava cheio de aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava a lua. Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou também para a lua, e murmurou de entre os seus agasalhos: - Ó Alencar, recita para aí alguma coisa… […] no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou: - Esqueceram-me as queijadas!
- Vejam vocês isto! - gritou Cruges, que parara, esperando-os. - Isto é sublime. Era apenas um bocadito de estrada, apertada entre dois velhos muros cobertos de hera, assombreada por grandes árvores entrelaçadas, que lhe faziam um toldo de folhagem aberto à luz como uma renda: no chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silêncio, uma água que se não via ia fugindo e cantando. - Se tu queres sublime, Cruges - exclamou Alencar - então tens de subir à serra. Aí tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte... - Não sei, talvez goste mais disto - murmurou o maestro. A sua natureza de tímido preferiria, de certo, estes humildes recantos, feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, lugares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o cismar dos indolentes... - De resto, filho - continuou Alencar - tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu, por exemplo, aquela linda florinha azul... - e, ternamente, apanhou-a. - Vamos andando, vamos andando - murmurou Carlos impaciente, e agora, desde que o poeta falara do cãozinho de luxo, mais certo de que ela estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.
- Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no meio da estrada. Depois, com a mesma efusão ruidosa, apertou Carlos contra o coração, beijou o Cruges na face - porque conhecia Cruges desde pequeno, Cruges era para ele como um filho. Caramba! Eis aí uma surpresa que ele não trocava pelo título de duque! Ora o alegrão de os ver ali! Como diabo tinham eles vindo ali parar? E não esperou a resposta, contou ele logo a sua história. Tivera um dos seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Melo, o bom Melo, recomendara-lhe mudança de ares. Ora ele, bons ares, só compreendia os de Sintra: porque ali não eram só os pulmões que lhe respiravam bem, era também o coração, rapazes!... De sorte que viera na véspera, no ónibus. - E onde estás tu, Alencar? - perguntou logo Carlos. - Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha Lawrence. Coitada! está bem velha, mas para mim é sempre uma amiga, é quase uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês com essas flores nas lapelas? - A Seteais... Vou mostrar Seteais ao maestro. Então também ele voltava a Seteais! Não tinha nada que fazer senão sorver bom ar, e cismar... Toda a manhã andara ali, vagamente, pendurando sonhos dos ramos das árvores. Mas agora já os não largava; era mesmo um dever ir ele próprio fazer ao maestro as honras de Seteais... - Que aquilo é sítio muito meu, filhos! Não há ali árvore que me não conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas enfim, vocês lembram-se de uma coisa que eu fiz a Seteais, e de que por aí se gostou… Quantos luares eu lá vi! Que doces manhãs d' Abril! E os ais que soltei ali Não foram sete, mas mil! Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer Seteais... O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam todos três calados. - Dize-me uma coisa, Alencar - perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no braço do poeta. O Dâmaso está na Lawrence? Não, que ele o tivesse visto. Verdade seja que na véspera, apenas chegara, fora-se deitar, fatigado; e nessa manhã almoçara só com dois rapazes ingleses. O único animal que avistara fora um lindo cãozinho de luxo, ladrando no corredor... - E vocês onde estão? - No Nunes. Então o poeta, parando de novo, contemplando Carlos com simpatia: - Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes eu tenho dito àquele diabo que se metesse no ónibus, viesse passar dois dias a Sintra. Mas ninguém o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a música, para compor, para entender um Mozart, um Chopin, é necessário ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem…
Ele [Ega] sentara-se bruscamente na cama; e estendendo a mão para os cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na véspera combinara uma ida a Sintra com o Taveira... Por precaução mandara-se chamar... Mas não sabia, acordara cansado... - Que tal está o dia? Justamente Carlos fora correr o transparente da janela. Aí, na mesa de trabalho, colocada em plena luz, ficara a caixa da Monforte embrulhada no «Rappel». E Ega pensou num relance: «Se ele repara, se pergunta, digo tudo!» - O seu pobre coração pôs-se a bater ansiosamente no terror daquela decisão. Mas o transparente um pouco perro subiu, uma faixa de sol banhou a mesa - e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um imenso alívio para o Ega. - Então, Sintra? - disse Carlos, sentando-se aos pés da cama. - Com efeito não é má ideia... A Maria ainda ontem esteve também a falar de ir a Sintra… Espera! Podíamos fazer a patuscada juntos... Íamos no "break", a quatro! E olhava já o relógio, calculando o tempo para atrelar, avisar Maria. - O pior - acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monóculo - é que o Taveira falou em irmos com umas raparigas... Carlos encolheu os ombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres para Sintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, vá... Mas à luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hem?... Ega embrulhou-se numa complicada história, limpando o monóculo à ponta do lençol. Não eram espanholas... Pelo contrário, umas costureiras, raparigas sérias... Ele tinha um compromisso antigo de ir a Sintra com uma delas, filha de um Simões, um estofador que falira... Gente muito séria!... Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da ideia de Sintra.
- É patriotismo - disse o Ega. - Fujamos! Mas o marquês reteve-os, gostando também de um bocado de Quinas. E foi o pobre marquês que o patriota pareceu interpelar, alçando na ponta dos botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora aí, que, agarrando numa das mãos a espada e na outra a cruz, saltasse para o convés de uma caravela a ir levar o nome português através dos mares desconhecidos? Quem havia aí, heróico bastante, para imitar o grande João de Castro, que na sua quinta de Sintra arrancara todas as árvores de fruto, tal a era a isenção da sua alma de poeta?…
Não a tornara a encontrar desde Sintra, onde só a via de longe, com vestidos claros sob o verde das árvores; e agora ali, toda de preto, em cabelo, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu colo, ela era outra vez a sua Rachel, dos tempos divinos da Vila Balzac. Era assim que ele, todas as noites em S. Carlos, a contemplava do fundo da frisa de Carlos, com a cabeça encostada ao tabique, saturado de felicidade.
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