Teatro de São Carlos

Eça de Queirós — A Capital!
O Vitorino, muito instado, urgido, mandara-lhe o fato: tinha comprado uma boquilha de espuma, que representava uma cabeça de "cocotte"; e como um cavaleiro impaciente de usar as suas armas, começou «a gozar a rua». A sua vida agora tinha grandes doçuras: a melhor era depois de almoço, era encostar-se à janela a fumar o seu charuto: os dias estavam azuis, com um pó dourado de luz: no Chiado os preg… see more

Additional Excerpts

— Aí tem você, S. Carlos, "chic", hein? Levou-o logo ao bilheteiro a comprar duas cadeiras do lado do Rei — o diabo do Savedra não largava a cadeira do Século. Em baixo, pediu ao «porteiro amigo», a quem bateu familiarmente no ombro, o binóculo do sô Mesquita; apagou o charuto meio fumado, que guardou a um canto - porque «os tempos não estavam para desperdícios», e tendo cofiado os bigodes — empurrou o batente verde. Como Artur escreveu, no dia seguinte, ao Rabecaz, «ficou deslumbrado com S. Carlos, com a majestosa arquitectura dos camarotes, a vastidão do palco, com a soberba tribuna, e aquela sociedade elegante, silenciosa, escutando uma divina música, era realmente, amigo Rabecaz, verdadeiramente imponente!». Cantava-se a "Africana": o pano erguera-se para o segundo acto. Sentindo-se olhado, ao atravessar para a sua cadeira, Artur, atarantado, com todo o sangue nas faces, ia pisando sujeitos. — Oh senhor, exclamou um, torcendo-se furioso. Artur, nem pôde «pedir perdão», aflito. E imóvel na sua cadeira, com o chapéu nos joelhos, o espírito esmagado, pasmava para uma decoração de cárcere, onde uma dama gorda, cor de cobre, barbaramente ornada, junto a um catre onde um homem dormia, balançava cantando um leque de plumas: a sua voz cálida, revibrante nos agudos, lasciva nas modulações doces, deu-lhe um arrepio de emoção. — É a Sassi, disse-lhe baixo o Melchior. Que lhe parece o teatro? Artur fez apenas um movimento admirado, com as sobrancelhas. Como lhe disse o Melchior, «todo o acto esteve embatucado». Os personagens, com os seus gestos melodramáticos, pareciam-lhe mover-se vagamente, na instrumentação substancial e massiva, como uma atmosfera sonora, de sonho. Olhava a decoração, as passadas selvagens de Nelusko, as duas colunas do proscénio, tocadas de alto a baixo dum vivo de luz, em camarotes, que lhe pareciam muito distantes, as palidezes especiais que dá ao rosto o pó-de-arroz sob a luz do gás, as nuances de seda, envolvido numa harmonia magnífica e incompreensível, em que às vezes seguia um momento melodias delicadas, que os tumultos da instrumentação bem depressa absorviam, e a magnificência orquestral, junto à riqueza social, que sentia em redor, davam-lhe uma opressão. Quando o pano desceu respirou com alívio. — Vamos a ver o gado, disse logo Melchior, erguendo-se. Saudou em redor com a mão. Olá Visconde, Viva amigo Silva, - e depois de examinar rapidamente os camarotes, declarou com desdém que não estava ninguém decente, e que «ia acabar o charutinho.» Intimidado, pela sussurração da plateia levantada, Artur não se mexeu: os seus olhos saciavam-se em detalhes, sofregamente, na alta disposição dos camarotes dum tom rico e escuro, no lustre, com fulguração de pingentes, pondo na tonalidade sombria, relevos claros de envernizado branco, e dos dourados antiquados, na gravidade monárquica da tribuna, desdobrando a sua cortina de veludo cor de cereja, entre as cariátides mamíperas. Sobretudo as mulheres impressionavam-no: na compostura dos seus movimentos, na brancura dos seus pescoços, sentia a influência das genealogias, que as enobreciam, e dos palacetes que habitavam: admirou as luvas de oito botões, formas de penteados; quereria saber o que diziam, por que sorriam. Estaria ela? Procurava-a até nas torrinhas, com o binóculo. Não a viu — e sentiu uma vaga melancolia. O jantar pesava-lhe! Um pouco, o calor amolecia-o. Nas bancadas clareadas, reparava agora em homens, de cabelo lustroso e bem cortado, com peitilhos resplandecentes, atitudes lânguidas. O seu fato coçado separava-o daquela sociedade bem vestida, com ruge-ruges de seda, gravatas brancas: havia em todas aquelas pessoas como a afinidade duma frequentação permanente: conheciam-se: sabiam, uns aos outros, os sentimentos, os rendimentos, os timbres de voz, as parentelas: sentia-se vagamente um intruso: desejou ser titular — e que o Vitorino lhe mandasse depressa a casaca. Depois sentia, naquela sociedade, instintivamente, uma indiferença pela Arte, pela Poesia, pelo Génio: havia nas maneiras alguma coisa de fictício, incompatível com as preocupações do Ideal: nas conversações, alguma coisa de ligeiro, que denunciava a trivialidade das ideias. Parecia agora que o seu livro, os "Esmaltes e Jóias" - toda a sua poesia, o seu drama, não seriam bastantes, para interessar aquelas indiferenças como, ai, o seu dinheiro era insuficiente para igualar aquelas elegâncias… Veio-lhe uma vaga tristeza pelas excelências do seu coração, desconhecidas, as cintilações do seu talento, inéditas. E, triste, com a desconsolação de estar mal vestido, de ser obscuro, olhava o braço do rabecão, apoiado à grade da orquestra, pensando no seu quarto em Oliveira, nas noites vibrantes de trabalho — em tantas imaginações, então, que agora a presença duma burguesia rica, próspera, e aparentada, lhe fazia parecer irrealizáveis. E quase lamentava Oliveira, como um elemento natural em que não contrastava. Mas os músicos, saindo debaixo do palco, instalavam-se: afinações de rebeca corriam na orquestra: entrava-se; e o pano erguendo-se devagar, descobriu um galeão. Soldados com mosquetes passeavam, no castelo da proa; num cubículo baixo, um fidalgo de gibão de veludo, e gorra de pluma, media com um compasso sobre um mapa: e cercada de comparsas de faces avelhadas e gastas, uma dama gorda cantava, sentada, numa postura de sarau. A desafinação dos coros irritava os diletantes: havia ohs! De escárnio. «Que escândalo», rosnava-se grossamente, com indignação. «Ih Jesus!», gania-se com arrepios. Melchior, afectando um horror de crítico, tapava os ouvidos. A dama corava, empalidecia, via-se-lhe um suor aflito — e não tirava de sobre o seio bojudo uma mãozinha papuda. Mas uma sineta deu um toque melancólico, e soldados, marinheiros, começaram, num canto, largo, a orar a S. Domingos. Então tacões patearam. Um sujeito ao lado soltou uma obscenidade irritada. Melchior mexia-se para os lados acusando o ensaiador, a empresa, o Governo — e enterrando-se na cadeira com uma resignação sombria: — Isto nem é S. Carlos, nem é nada! É uma choldra!
[…] apenas na rua, sentia-se todo fraco, sem resistência contra as tentaçõezinhas, as vaidades: comprava «mais» um par de luvas, tomava em S. Carlos uma «cadeira» em lugar duma «geral», decidindo que seria a última vez. Desde que fora com o Melchior ao Mata comer ostras, tomara o hábito daquela ceia: e para não perder na consideração do criado, apesar dos seus remorsos, bebia um Sauternes caro, dava-lhe dois tostões de "pourboire". E justificava-se vagamente pensando que a publicação dos "Esmaltes e Jóias", a representação do Poeta, encheriam de novo os cartuchinhos de libras, que tinha no fundo do seu baú, alguns já com o papel meio vazio, e meio amarrotado. A conta do hotel que foi apresentada por esses dias, decidiu-o a ir falar com o Melchior para a impressão imediata do volume. Queria-se mesmo mal, daquelas semanas ociosas, gastas nas ruas; o drama, representado, dar-lhe-ia todas as noites, seis, sete libras: via já o seu retrato vendido nas lojas, os folhetins cheios da sua biografia. Já àquela hora, podia ter os seus recursos regularizados, ser conhecido dela! E na sua impaciência foi à redacção do "Século". Ao começo da Rua do Correio encontrou o Melchior: vinha com um indivíduo baixo e cheio de barba preta, fina, carne mole e baça, as pálpebras inflamadas. A fita do chapéu tinha um tom gorduroso; o colarinho, uma linha enxovalhada do roçar do pescoço gordinho e oleoso: e sobre o peito do jaquetão abotoado, pendia um "pince-nez" enorme de vidros defumados, preso por uma larga fita de moiré.
- Lisboa, amigo, disse o Melchior, resumindo, é o consolinho das almas! - E escorropichou o copo de termo. Vieram ao largo de Camões tomar uma tipóia, para os levar a Santa Apolónia. O cocheiro era ainda o Teso. - Pra o Dafundo, meu amo, exclamou logo. - Não, pra o Espanhol, disse Artur, satisfeito de ver que o Teso o reconhecera - e aquilo aumentou a sua saudade de Lisboa. O Chiado, muito claro, estava na sua hora viva. E Artur, direito no assento, ia devorando com os olhos os lugares que amava, - a Casa Havanesa, a janela do seu quarto lá em cima no Universal - que ferro ir-se! -e o Baltreschi, com os "lunchs" às duas horas, e o Godefroy onde comprava frasquinhos de feno pra a Concha! Ah! O cartaz de S. Carlos, fez-lhe morder o beiço de comoção: revia o lustre, o largo palco, os coros; outras carruagens passavam, com librés, indo para lá! E ele partia!... […] Mas tinham chegado ao Espanhol. Artur subiu ao quarto: e enquanto o Manuel descia o baú, ficou um momento imóvel olhando, as paredes, o leito onde dormira tantas semanas com a Concha, a varanda onde ela se encostava, o espelho onde o Pancho remexia as suas tranças negras. - Acabou-se!, disse por fim, descendo. […] Quando chegaram a Santa Apolónia, teve apenas tempo de comprar o bilhete para a bagagem -correr para a plataforma. Faltavam dois minutos, no relógio transparente.
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