Rua de São Bento

Eça de Queirós — Alves e C.ª
Mas as oito horas aproximavam-se e Carvalho começou a calçar as luvas pretas. Então, Godofredo falou em os acompanhar. Meter-se-ia dentro do quarto do Medeiros, enquanto se celebrava a conferência na sala: - eles poupavam assim o trabalho de voltar à Rua de S. Bento a dar-lhe parte do resultado. E apesar de Medeiros considerar que era contra a etiqueta, terminaram por consentir, «por se tratar de … see more

Additional Excerpts

O choque desagradável do encontro com o Machado passara também. No escritório da Rua dos Douradores continuava a rotina de relações, frias, corteses, toleráveis. Mas agora, mais calmo, Godofredo sentia com redobrada intensidade todos os detalhes daquela vida de viúvo que devia ser a sua para sempre – e só descobria, nom futuro, desconforto e tristeza. Ao princípio, pensara em deixar a casa da Rua de S. Bento, ir viver para o hotel. Mas depois receou a opinião, a maledicência. Ninguém sabia que ele estava separado de sua mulher. Supunha-se que ela estava a banhos com o pai, e que Godofredo a ia ver de vez em quando - e tinha por todos os meios de manter esta ficção. Além disso, que havia de fazer às duas criadas? Porque persistia na ideia de manter o silêncio em torno da sua desgraça, conservando sob chave, ligadas a ele pelo interesse de uma boa situação, aquelas duas criaturas que a conheciam. Ficara em S. Bento, e a sua existência ali era perfeitamente desgraçada.
- O que lá vai, lá vai! Venha você daí jantar connosco! E nem o deixou hesitar; quase lhe enfiou o paletó, arrastou-o escada abaixo, chamou uma tipóia, atirou-o para dentro, levou-o em triunfo à Rua de S. Bento.
Parecia-lhe estranho que fosse ele, ele, Alves, que ali, naquela Rua de S. Bento que o sol da manhã dourava, tivesse tido aquela ideia trágica e própria dum coração violento.
Mas enfim, numa data daquelas, de festa, como uma data de anos, aquelas coisas esqueciam-se, o sentimento de família dominava. E decidiu logo correr à Rua de S. Bento, lembrar a Lulu aquela grande data, mandar um recado ao sogro, que morava a Santa Isabel. Eram quase três horas, a correspondência estava assinada, não havia nesse dia outros afazeres, naquela espécie de repouso que se seguia à azáfama das ocasiões de paquete. E tomando o chapéu, no regozijo do meio feriado, alegrava-se à idéia de ir surpreender com um bom abraço a sua querida Lulu. Só uma coisa o contrariava: que o Machado estivesse no Lumiar e não pudesse jantar com eles.
Então, novamente, a vida de Godofredo foi calma e feliz. Na Rua de S. Bento entrara de novo a ordem e a alegria.
×